Título: Fogo amigo na Fazenda
Autor: Ricardo Rego Monteiro
Fonte: Jornal do Brasil, 26/10/2005, Economia & Negócios, p. A17

Secretário do Tesouro aponta contradição entre a política de juros altos do Banco Central e o estímulo ao crédito barato

Diante das pressões de dentro do próprio governo para a expansão e barateamento do crédito no país, o secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, partiu ontem para a ofensiva e cobrou maior coordenação da política monetária. Em um recado direto ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Guido Mantega, Levy afirmou que, quanto mais coordenada for essa política, maior a eficácia da Selic como instrumento de combate à inflação e menores serão suas elevações pelo Banco Central. ¿ Não dá para você ter uma política monetária mais restritiva e o pessoal querer, até mesmo no setor público, emprestar cada vez mais barato. É preciso ter uma certa coordenação ¿ afirmou o secretário do Tesouro Nacional, que citou como exemplo a Taxa de Juros de Longo Prazo, referência para os empréstimos do BNDES. ¿ A TJLP tem que ter uma crescente coordenação com a política monetária como um todo. A estabilidade dela, hoje, ajuda o investidor, pois ele saberá que amanhã todas as taxas vão estar mais baixas.

O presidente do BNDES tem criticado de forma recorrente a resistência do Conselho Monetário Nacional de reduzir a TJLP. Na última reunião, por exemplo, em setembro, o Conselho decidiu manter a taxa em 9,5% ao ano. Nas últimas semanas, também têm aumentado os rumores sobre a discordância do secretário do Tesouro em relação à condução da política monetária, que teria custo fiscal exagerado.

Levy participou ontem da abertura da conferência internacional Investimento para o desenvolvimento: fazendo Acontecer, da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na ocasião, ele justificou que, quanto maior o descasamento da política monetária, maior será a necessidade de manutenção da taxa básica de juros no patamar atual. Para o secretário, a Selic acaba por ¿carregar o piano¿ no combate à alta do custo de vida, uma vez que existiria uma grande pressão da sociedade contra a volta da inflação.

¿ Se há uns tempos eu brigo que a política monetária tem carregado o piano sozinha, então a Selic vai ser alta, vai ter que mudar muito ¿ afirmou o secretário, ao lembrar que essa falta de coordenação acaba por limitar a eficácia da taxa no controle da inflação. ¿ A política monetária é eficaz, sem dúvida nenhuma, mas só afeta uma fração pequena da economia. Ela tem que variar mais para ter o mesmo efeito.

Questionado se os empréstimos consignados ¿ responsáveis pela ampliação do crédito no governo Lula ¿ também contribuem para minar a eficácia da Selic, Levy limitou-se a dizer que o tema ¿merece uma discussão maior¿. Analistas vêm criticando a contradição da política monetária na gestão petista, já que os efeitos dos juros altos seriam anulados pelo crédito em expansão.