Título: Além do Fato: Um ano perdido
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 27/10/2005, Internacional, p. A9

Duas cenas recentes mostram que o conflito Israel-palestinos retornou à triste monotonia da violência. Na segunda, a morte de um líder da Jihad Islâmica. Ontem, a represália do grupo em Hadera. É uma pena. Há um ano, em um encontro do qual participei no Ministério das Relações Exteriores, em Jerusalém, o cientista político Harry Knei Tal foi enfático. A hora da decisão havia chegado. Falava com a credencial de ser um dos principais formuladores estratégicos do governo israelense. O fastio com as mortes de ambos os lados havia gerado um ambiente propício a conversações mais abrangentes. Meses depois, Mahmoud Abbas vencia as eleições na ANP.

O desafio do veterano líder era enorme, tanto quanto o crédito que lhe era dado. Tomou posse em um Estado simbólico, com a missão de torná-lo real. Abbas fez outro pleito e assumiu uma linha arriscada ao tentar, via diálogo, desarmar os extremistas ao mesmo tempo em que condenava suas ações com energia.

A partir da desocupação unilateral de Gaza, no entanto, ficou patente que tais grupos usaram a pausa para se fortalecer e deixar claro que a guerra pela terra é um negócio por dinheiro e poder, e não por nacionalismo.

Ressalvadas as críticas palestinas à forma como o processo foi conduzido, a oportunidade para a ANP ali era preciosa. Mas no vácuo deixado pelos israelenses não se viu por um longo e angustiante tempo a presença da autoridade constituída, só o ostensivo desafio dos radicais. Todos reivindicaram a posse da terra e não foram contestados, como se o debate político se tornasse mais legítimo com tal concessão.

Os sinais de que a chance se perdeu vieram rápido. A anarquia em Rafah, onde por dias a falta de lei deixou a fronteira com o Egito aberta, é um deles. Nas fotos que começamos a receber desde então, militantes da Jihad, das Brigadas de Al Aqsa e do Hamas têm fardas e fuzis AK-47 novíssimos. Houve ainda a expulsão do primeiro-ministro da ANP, Ahmed Qorei, de Gaza. A reação de Abbas, restringindo a ação dos radicais, veio tarde demais, quando os adversários já o superam pelas armas. Se quiser se impor, terá de enfrentá-los em condições agora muito mais desfavoráveis.