Título: Fundos de pensão mudam foco
Autor: Samantha Lima*
Fonte: Jornal do Brasil, 27/10/2005, Economia & Negócios, p. A19
Os fundos de pensão estão buscando reduzir a concentração dos investimentos em títulos públicos. A expectativa de queda na rentabilidade desses papéis, devido à trajetória declinante da taxa básica de juros, levou os comitês gestores dessas instituições a discutir uma maior diversificação dos ativos aplicados no mercado financeiro, de acordo com Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira de Previdência Privada (Abrapp), entidade que congrega 360 fundos de previdência fechada.
- Atualmente, temos 63% dos recursos do sistema, ou R$ 168,1 bilhões, em títulos públicos. A queda dos juros proporcionará um retorno menor a esses investimentos e, por isso, estamos buscando visualizar outras formas de aplicação de recursos. As Parcerias Público-Privadas (PPPs) poderão ser uma alternativa - avalia Pimentel, durante o primeiro dia do 26º Congresso da Abrapp.
Segundo Pimentel, o maior obstáculo à diversificação das aplicações, que somam R$ 264 milhões em investimentos, é a falta de opções.
- Temos um mercado muito incipiente em termos de opções de aplicação em relação a outros países. Precisamos é de alternativas. Não temos preconceito em relação a investimento, desde que traga rentabilidade, segurança e liquidez - afirma.
Segundo maior fundo de pensão em investimentos, a Petros (dos funcionários da Petrobras) já adotou uma orientação de maior diversificação. Nesse sentido, as principais aquisições, de acordo com o presidente da entidade, Wagner Pinheiro, são ligadas a operações atreladas à concessão de crédito privado e financiamentos de projetos corporativos.
- Estamos comprando mais debêntures de empresas. Já temos na nossa carteira papéis da Cemig, CSN, Concepa, CPFL e Vale. Compramos também Fundos de Investimento em Direitos Creditórios do BMG na carteira de crédito para servidor público e Certificados de Recebíveis Imobiliários. Ainda estamos muito incipientes, mas nossa meta é, em um ano, alocar 10% dos nossos recursos em investimentos desse tipo - prevê Pinheiro. - O problema na oferta desses papéis é que o mercado sempre vai exigir rentabilidade pelo menos próxima à taxa de juros. E quando juros sobem, as empresas não conseguem dar esse retorno ao investidor e, por isso, deixam de emitir esses papéis. Não é por falta de interesse nosso - explica.
Apesar da alta concentração em títulos públicos dos fundos de pensão, seus resultados no primeiro semestre não refletiram o patamar elevado da taxa básica de juros, que orienta a remuneração desses papéis. As instituições registraram crescimento de apenas 3,4% nos recursos investidos, entre janeiro e junho. Em todo o ano de 2004, os fundos conseguiram elevar os ativos em 18,3%, de R$ 216 bi para R$ 255 bi.
- O que acontece é que, em alguns períodos, há um número maior de pessoas se aposentando e um número menor de novos ingressos no sistema. Mas acredito que as metas atuariais dos gestores serão atingidas. Nossos ativos totais estão hoje em R$ 289 bilhões, chegará aos R$ 300 bi até o fim do ano - prevê Pimentel.
No caso da Petros, Pinheiro afirma que o fundo buscará resultado cinco pontos acima da meta atuarial de 11%. Até agora, o total de investimentos do fundo nos ativos financeiros pulou de R$ 26 bi para R$ 28 bi, ou 7,6%.
- Se obtivermos uma rentabilidade de 16,5%, conseguiremos manter nosso passivo no mesmo valor nominal do início do ano, de R$ 5 bilhões.
Atenta à busca por diversificação pelos fundos de pensão, a KPMG quer assessorar as entidades na empreitada. O assunto será tema de painel no Congresso que terá a participação do diretor responsável pela estruturação de projetos de PPPs da consultoria, Maurício Endo.
- Esses projetos proporcionarão, em alguns casos, rentabilidade superior à renda fixa, nos de maior risco, e um pouco inferior a esse patamar, nos projetos de maior segurança. No Chile e na Inglaterra, a participação dos fundos veio num momento de menor risco das PPPs, mas porque nesses países os fundos não tinham um papel tão fundamental como provedores de recursos.
A consultoria concluiu recentemente dois editais de PPPs estaduais. O primeiro, do serviço de saneamento da Bahia, projeto de R$ 150 milhões, foi lançado ontem. Nos próximos dias, será entregue o edital da construção da MG 050, de 375 quilômetros, orçada em R$ 350 milhões. Nos dois projetos, porém, a KPMG não atuará como consultora de investidores para evitar conflito de interesses.
- São dois projetos que vão ao encontro das necessidades dos fundos de pensão. No de saneamento, porque serão remunerados pelo estado. No de rodovia, porque o estado subsidiará parte do pedágio.
*A repórter viajou a convite da Abrapp