Título: Pacientes da Zona Oeste lotam hospitais do Centro
Autor: Waleska Borges
Fonte: Jornal do Brasil, 29/10/2005, Rio, p. A15
Falta de unidades de saúde prejudica, por dia, cerca de 4 mil pacientes
Longe do esforço das autoridades públicas para resolver a crise da saúde no Rio, os postos municipais e hospitais estaduais da Zona Oeste agonizam. Os problemas de falta de medicamentos, profissionais e equipamentos quebrados se arrastam e ajudam a sobrecarregar as emergências de todo o município. Uma vistoria do vereador Carlos Eduardo (PPS) nos hospitais Albert Schweitzer, em Realengo, e Rocha Faria, em Campo Grande, mostra as deficiências no atendimento à população. Sem opção, muitos doentes desistem de procurar ajuda nas unidades de saúde da região. Segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde da Zona Oeste, que abrange Santa Cruz, Paciência e Sepetiba, Adelson Alípio, cerca quatro mil pessoas buscam, diariamente, por atendimento nos hospitais Albert Schweitzer, Rocha Faria e Pedro II, em Santa Cruz.
- Hoje, a situação da rede de saúde na Zona Oeste é igual ou pior do que quando houve a intervenção federal em março - critica Alípio lembrando que apenas o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, recebeu os medicamentos doados, esta semana, pelo Ministério da Saúde.
Os problemas no Albert Schweitzer foram flagrados, na quarta-feira, durante a vistoria do vereador Carlos Eduardo. Na emergência do hospital, por causa da superlotação, os pacientes estavam internados pelos corredores. Faltavam colchões nas macas e roupas de cama. O centro cirúrgico funciona improvisado na enfermaria do quarto andar. Na semana passada, segundo os médicos, o setor ficou fechado três dias por falta de condições de higiene e recursos humanos.
A situação de precariedade também não é diferente no Rocha Faria. No setor infantil da emergência, 18 crianças estavam internadas no espaço que seria para 12, duas delas eram atendidas em bancos. O vereador Carlos Eduardo lembra que faltam materiais para neurocirurgias e os médicos usam seus equipamentos particulares.
- A rede de saúde pública na Zona Oeste é esquecida pelos governantes que só aparecem na região em época de eleição - critica o vereador.
De acordo com Alípio, na maioria dos 63 postos de saúde da região, os pacientes já não estão sendo atendidos por ginecologistas, cardiologistas, demartologistas e pediatras. Em muitos casos, as consultas ocorrem uma vez na semana. Com fortes dores na coluna, desde maio, a dona de casa Cíntia Freitas, 29 anos, que mora em Santa Cruz, tenta fazer um raio X. Depois de ser atendida por uma casa de saúde, ela foi indicada para um posto de saúde. A unidade, porém, lembra Cíntia, não dispunha do equipamento. A dona de casa também espera há três meses para ser atendida no posto de saúde por um ginecologista.
- Já esperei até quatro horas por uma vaga, mas os médicos ginecologistas dos postos dizem que a prioridade de atendimento é das gestantes - lamenta Cíntia que não tem plano de saúde.
Moradora de Santa Cruz, a costureira Clenilda Maria Dias, 55 anos, conta que também tenta fazer um exame ginecológico há três meses. Segundo ela, os postos de saúde da região não têm o aparelho. Ela lembra que ainda procurou ajuda no Hospital Salgado Filho, no Méier, que não dispunha de vaga.
- Ganho R$ 300 e o exame custa R$ 360. Não tenho como pagar - lamenta Clenilda.
Presidente da Associação de Moradores de Paciência, Maria Glória da Rocha, lembra que, desde o ano passado, uma senhora de 74 anos tenta fazer um exame de vista nos hospitais da Zona Oeste.
- Para ser atendida na Zona Oeste a pessoa tem que estar morrendo - indigna-se Clenilda.
O presidente do Sindicato dos Médicos do Rio (SinMed), Jorge Darze, disse que o abandono da rede de saúde na Zona Oeste fica evidente na distribuição de leitos.
- A Zona Sul tem 30% da população e 70% dos leitos. Na Zona Oeste, a situação se inverte. A política de saúde não leva em conta a distribuição social da cidade - observa Darze.
A Secretaria Municipal de Saúde admitiu que, na Zona Oeste, há falta pontuais de medicamentos e médicos. O município alega que tem dificuldade de lotar profissionais na região. A secretaria Estadual de Saúde nega a falta de macas, roupas e equipamentos quebrados. O Estado acredita que o problema das emergências será minimizado com a abertura de 100 leitos.