Título: Lula cobra otimismo e paciência
Autor: Juliana Rocha
Fonte: Jornal do Brasil, 28/10/2005, País, p. A8

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar, ontem, os pessimistas, usando mais um dos seus conselhos inusitados: ele sugeriu que, toda manhã, os brasileiros deixassem o pessimismo no banheiro e dessem descarga para pensar em coisas boas. No dia em que completou 60 anos, Lula discursou na abertura do 33º Congresso Brasileiro dos Agências de Viagens, no Riocentro, e pediu paciência, em alusão à crise política. O presidente recebeu os parabéns da platéia puxado pela cantora Fafá de Belém

a pedido do anfitrião do Congresso, João Pereira Martins Neto, presidente da Associação Brasileira de Agentes de Viagens (Abav). A cantora pediu ao presidente punição para o desmatamento da floresta amazônica.

- Sempre tem gente contra, em qualquer lugar do mundo. Eu, que estou ficando velho, estou aprendendo que a gente tem que levantar todo santo dia e fazer uma reza profunda para que deixe o otimismo (pessimismo) no banheiro, dê descarga nele logo cedo e saia para rua pensando coisas boas, porque aí elas acontecem - afirmou Lula, para agentes de viagens, cometendo um deslize, ao trocar pessimismo por otimismo.

O presidente afirmou, ainda, que o povo brasileiro é impaciente e que este é o momento de ter paciência com a política e com a economia.

- Estamos vivendo um momento no Brasil em que não podemos permitir que a impaciência tome conta de nós. Uma chuva só vai promover os resultados importantes para a agricultura se cair de forma razoável. Pouca não resolve e muita mata as plantas.

Após receber os parabéns da platéia e dos organizadores do Congresso, Lula ouviu uma crítica em relação à ética dos políticos brasileiros. O presidente da Abav apontou, em seu discurso, que as denúncias de corrupção são um mau exemplo para a sociedade. A governadora Rosinha Matheus também estava presente.

- Temos que refletir sobre as lições que parte das lideranças nacionais estão dando ao povo. São lições de falta de ética, no uso da coisa pública para benefício dos partidos. É a lição de que os fins justificam os meios para alcançar o poder e a riqueza. O nosso povo não merecia isso - disse Martins Neto, em um pronunciamento que durou quase uma hora.

Seguindo sua própria cartilha, Lula apresentou um cenário otimista para a economia e para o turismo nacional nos próximos anos.

Ele disse que este é o momento para o Brasil buscar o crescimento econômico sustentável e citou os fundamentos positivos, como a alta das exportações e a queda da taxa de inflação.

Lula apontou, ainda, a meta do governo de atrair 9 milhões de turistas estrangeiros e gerar US$ 8 bilhões em divisas com a atividade turística no País.

Lula garantiu, porém, que não pretende tomar medidas econômicas eleitoreiras, visando a reeleição em 2006.

- No Brasil, todo ano eleitoral, o político é chegado a fazer loucuras. A inventar mágica. Não haverá mágica. Não passarei para a História com a irresponsabilidade de que inventei mais uma mágica e que acabou quando eu deixei o governo - disse, citando o câmbio flutuante, que desagrada aos exportadores.

Em seu discurso, Lula cobriu o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, de elogios. Chegou a dizer que gostaria de ocupar o cargo, ao invés de ser presidente.

- Na outra encarnação, se puder ser um homem público, quero ser ministro do turismo. Espinhoso no governo é ser presidente, governador ou ministro da Fazenda - brincou Lula, acrescentando que enquanto o presidente da República visita a Refinaria de Duque de Caxias (Reduc) ou a fábrica de veículos da Volkswagen, Mares Guia vai a Congressos em Cancún.

Lula concluiu o discurso dizendo que acertou ao criar o ministério do Turismo, mas afirmou que a responsabilidade pelo desenvolvimento do setor é tanto do governo quanto do setor privado.

- Este tem que ser um pai coletivo. Essa criança esta em um grande orfanato e nós vamos cuidar dela com carinho.