Título: Trânsito livre na esquerda
Autor: Silmara Cossolino
Fonte: Jornal do Brasil, 31/10/2005, País, p. A2
Nas últimas duas décadas, o cubano Sérgio Cervantes - apontado como o homem que trouxe doação de Cuba para o PT - transitou por todas as rodas de políticos de esquerda no Brasil. Ele morava na superquadra 211 Sul, em Brasília, com a esposa Nora. Membro do Partido Comunista de Cuba, esteve pela última vez em Brasília no último dia 22, durante o 11º Congresso do PCdoB, chefiando a delegação cubana. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), conheceu Cervantes no início dos anos 80, quando o cubano começou a abordar parlamentares brasileiros, estratégia para reatar a relação entre os dois países. Virgílio - na época um parlamentar da oposição peemedebista que apoiava o regime de Fidel Castro - diz que Cervantes era um homem ''muito querido'', encarregado de programar viagens de parlamentares a Cuba. O senador diz que nunca presenciou nenhum tipo de abordagem do representante cubano com fins de doação de campanha no Brasil:
- Não havia espaço para isso. Nunca ouvi falar de dinheiro vindo de Cuba. Era conversa política de sedução do regime de Cuba.
Hoje, no entanto, com tantas denúncias de financiamento internacional de campanha, o líder do PSDB começa a acreditar que o governo Lula pode ter trocado a solidariedade que prestou a Fidel Castro pela doação de campanha.
- Será que o Lula não estaria devolvendo a ajuda que recebeu na campanha, justificando a barbárie que acontece em Cuba? - indaga Virgílio.
O deputado distrital Augusto Carvalho (PPS) lembra da festa de despedida de Cervantes na embaixada de Cuba, em Brasília, no início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Lá estavam o então todo-poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF), entre outros.
- A festa teve burritos mil e rum com folha de hortelã - lembra Carvalho.
Hoje, na oposição ao governo, o deputado distrital já não consegue descartar a possibilidade de o PT ter realmente recebido dinheiro de Cuba durante a campanha presidencial.
- Acho que tudo é possível - diz Augusto.