Título: Mercado em alta voltagem
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 03/11/2005, Economia & Negócios, p. A15
As captações feitas pelas companhias elétricas no mercado de capitais este ano mais do que dobraram em relação ao ano passado. Somadas, as operações do setor realizadas por meio de emissões de ações e debêntures e por estruturação de fundos de investimentos em direitos creditórios (FIDC) na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) atingiram R$ 9,24 bilhões até outubro, ante R$ 3,99 bilhões nos 12 meses de 2004. Embora o crescimento tenha sido observado ano após ano, 2005 pode ser considerado um marco, dada a elevação recorde do volume financeiro arrecadado. Se a comparação for feita para os últimos quatro anos, o salto chega a 852%, quase multiplicado por dez desde os R$ 969,6 milhões captados em todo o ano de 2002.
Segundo analistas, o motivo para tamanha elevação é a melhoria da avaliação de crédito das empresas do setor, em decorrência das reestruturações de dívidas e da regulamentação das novas leis setoriais.
- O mercado se abriu às companhias elétricas porque aumentou a previsibilidade das receitas e a lucratividade foi retomada - afirmou Vitor Pereira, da BES Securities.
Para a analista Rosângela Ribeiro, do Banco Real, as captações, que até agora eram utilizadas para alongar as dívidas, devem passar a financiar também investimentos produtivos, como a construção de novas usinas.
- O mercado de capitais foi bastante utilizado no processo de reestruturação das dívidas. Eram formas mais baratas para alongar o perfil de endividamento. A tendência é de que esse tipo de operação continue a aumentar. Mas, agora, o maior volume de recursos deve ser utilizado como capital de giro ou para financiar novos projetos - afirmou a analista, ao lembrar que o leilão de novos empreendimento de geração, marcado para dezembro, deve intensificar os investimentos no setor. - É uma opção interessante especialmente para empresas estatais, que não podem aumentar o limite de endividamento com bancos.
Atualmente, poucas empresas estatais captam no mercado. Este ano, das 15 companhias que realizaram operações no mercado de capitais, só três são públicas: Copel, Cesp e Furnas Centrais Elétricas. As duas últimas têm optado por estruturar FIDCs, operação considerada com grande potencial de crescimento pelos analistas.
De acordo com Pereira, da BES, a alternativa, que hoje responde por quase 30% do total das captações das elétricas (cerca de três pontos percentuais a mais que no ano passado), têm espaço para crescer ainda mais nos próximos anos, principalmente entre distribuidoras e geradoras, que têm muitos recebíveis.
Nas duas operações de Furnas, a geradora deve arrecadar R$ 1,2 bilhão, dos quais R$ 336 milhões em 2004 e R$ 900 milhões este ano. A Cesp deve captar um total de R$ 1,1 bilhão. A bem-sucedida operação realizada em 2004, com contratos de seus grandes consumidores, levou a empresa a estruturar uma nova operação, desta vez com recebíveis das distribuidoras.
Hoje, o modelo de captação mais utilizado é a emissão de debêntures. Em 2005, Ampla (ex-Cerj), Copel, RGE, Tractebel Energia, Coelba, Energia Paulista Participações - que detém 8,69% da AES Tietê -, Celpe, Cosern, AES Eletropaulo e Elektro foram autorizadas a captar, juntas, R$ 4,12 bilhões, o que representa cerca de 12% dos R$ 32,5 bilhões emitidos pelas companhias abertas até outubro.