Título: Chirac defende o uso da força
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Fonte: Jornal do Brasil, 07/11/2005, Internacional, p. A7

Depois de uma madrugada de violência recorde, que, pela primeira vez desde 27 de outubro, levou a onda de ataques de vândalos ao Centro de Paris, o presidente francês, Jacques Chirac, rompeu o silêncio. Defendeu ontem à tarde o reestabelecimento da ordem e a atuação firme da Justiça na punição dos responsáveis pelos ataques e acabou surpreendido, horas depois, pelo primeiro grande confronto entre policiais e os jovens incendiários. Pelo menos 10 agentes foram baleados na região de Grigny, ao Sul de Paris, em conflito com cerca de 200 pessoas. O agravamento dos tumultos provocados por imigrantes pobres de origem árabe e africana levaram Chirac a marcar uma reunião de emergência com seus ministros. Logo após o encontro, em suas primeiras declarações desde o início dos conflitos, o presidente francês alinhou seu discurso ao do polêmico ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy, que sempre defendeu o uso da força nas periferias parisienses e chegou a chamar os autores das ações de ¿escória¿. Muito franceses atribuem às declarações de Sarkozy o acirramento dos incidentes. E circularam na capital ontem rumores de que o exército pode ser convocado.

Durante a madrugada de domingo, cerca de 1.300 veículos foram queimados. Dos carros atingidos, quatro estavam próximos à Praça da República, freqüentada por turistas. Até este fim de semana, o foco da revolta de jovens das comunidades pobres de imigrantes estava nos subúrbios da capital e em outras cidades francesas, de Nice, na Côte d¿Azur, até Estrasburgo, no Vale do Reno. Ao todo, cerca de 3.500 veículos ¿ entre carros, caminhões e ônibus ¿ foram incendiados desde o começo dos distúrbios.

Nos arredores de Paris, entre os muitos incidentes, uma explosão deixou em chamas um albergue de imigrantes, duas escolas, uma academia de ginástica e uma lanchonete da rede McDonald¿s. Em Essone, os rebeldes incendiaram uma usina de reciclagem, destruindo 800 metros quadrados de papel e pelo menos 35 veículos. Na cidade de Evreux, na região da Normandia, pelo menos 30 carros e três lojas foram incendiados. De acordo com relatos, os mais recentes ataques fora da Grande Paris também atingiram as cidades de Toulouse, no Sudoeste do país, além de Dijon, Lille, Marselha, Nantes e Rennes.

A maioria das linhas de ônibus noturnos no Norte e no Leste foi suspensa na madrugada de ontem como medida preventiva contra emboscadas, responsáveis pela destruição de pelo menos dois veículos. Cerca de 350 pessoas foram presas só na madrugada de ontem.

Em seu pronunciamento, Chirac afirmou que a recuperação da ordem pública é uma ¿prioridade absoluta¿, prometendo levar aos tribunais todos aqueles que ¿semeiam a violência e o medo¿. Mas admitiu que é preciso mais justiça social e oportunidades iguais para os jovens imigrantes. O presidente francês vinha sendo criticado por adversários políticos pela sua posição de neutralidade diante da mais grave crise social da França em mais de uma década. Seus únicos comentários sobre a crise haviam partido de um porta-voz.

A crise recente põe em lados opostos autoridades preocupadas com uma abordagem social do problema, já que os jovens incendiários vêm de regiões assoladas pelo desemprego, e os que defendem apenas a ação policial.

Entre os pacifistas, está o primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, e Dilil Boubakeur, o clérigo muçulmano que comanda a principal mesquita de Paris. O religioso afirmou querer ouvir ¿palavras de paz¿ das autoridades francesas, em especial do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, e do próprio Villepin. Mesma postura tem o ministro do Emprego, Jean-Louis Borloo. Na reunião no gabinete do premier, no sábado, Borloo defendeu a retomada do projeto de recuperação urbana, lançado há 18 meses. O programa prevê a duplicação do número de estabelecimentos sociais nas regiões mais pobres e a criação de zonas francas urbanas, onde as empresas que se instalarem teriam isenções fiscais. Os recursos necessários seriam de 40 bilhões de euros.