Título: O ódio que se organiza a cada dia
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 07/11/2005, Internacional, p. A8
A intensificação, a cada noite, dos ataques nos arredores de Paris e, na madrugada de domingo, no Centro da capital francesa, tem um único significado para as autoridades locais: os vândalos que têm espalhado o terror há mais de uma semana no país parecem cada vez mais organizados. A descoberta de uma ¿fábrica¿ de coquetéis molotov, no sábado à noite, levou o porta-voz da polícia nacional francesa, Patrick Hamon, a declarar que os explosivos não eram artefatos ¿improvisados por crianças em seus banheiros¿. No fim de semana, policiais encontraram num prédio abandonado mais de 100 garrafas preparadas para serem transformadas nos coquetéis, outras 50 já prontas, além de um estoque de combustível e várias máscaras do tipo que têm sido usadas por muitos vândalos. A polícia também já sabe que blogs e torpedos passados para celulares têm sido utilizados para convocar mais jovens incendiários e coordenar as ações.
Os policiais, que até a manhã de domingo estavam evitando confronto direto com os grupos, perceberam, ainda, que os adolescentes mais velhos têm ensinado aos mais jovens a fazer os explosivos e a usá-los.
Também há a suspeita de que, no caso dos ataques no Centro de Paris, os jovens, já motivados pelo ódio, tenham sido incitados por gangues de traficantes dispostos a tornar suas áreas de atuação em zonas sem lei, mantendo a polícia à distância e adicionando um componente ainda mais complexo à crise.
Outro dado desconcertante tem preocupado as autoridades. Desde o início da onda de violência, foram incendiados veículos e prédios em ruas e praças tradicionais batizadas com nomes de ícones da cultura francesa como os escritores Émile Zola, Anatole France e Albert Camus (que, ironicamente, também foi imigrante africano na França, onde virou um dos grandes do século XX).
A Praça Anatole France, por exemplo, fica em Clichy-sous-Bois, subúrbio de Paris onde tudo começou, após a morte por acidente de dois adolescentes que fugiam da polícia. Foi lá que, na quarta noite dos ataques, a polícia jogou gás lacrimogêneo em uma mesquita, obrigando os fiéis a saírem correndo.
¿ Agora é guerra. ¿ gritaram alguns, indignados.
¿ É a jihad. ¿ completaram outros tantos.
A França tem a maior comunidade islâmica fora do mundo árabe na Europa Ocidental, com cerca de cinco milhões de muçulmanos. Em um relatório divulgado dias antes das mortes que foram o pivô do início da rebelião urbana, o governo francês listou 751 regiões que classificou como zonas ¿sensíveis¿. Nessas áreas, a maioria da população é de muçulmanos e africanos. Ainda segundo o governo, a média de desemprego no grupo de rapazes com menos de 25 anos no país é de 36%. Os jovens que têm participado dos ataques estão nessa faixa etária.