Título: Fox rouba a cena em meio ao impasse
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Fonte: Jornal do Brasil, 06/11/2005, Internacional, p. A9
No dia em que a declaração final da 4ª Cúpula das Américas deveria ter sido o ponto alto do encerramento do evento, o presidente do México, Vicente Fox, deu o tom do clima de impasse instalado no continente - o consenso sobre o documento só saiu ontem à noite. Favorável à implantação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta dos Estados Unidos que foi o principal ponto de discórdia da reunião, Fox também declarou sua intenção de acelerar em 2006 a entrada de seu país no Mercosul, contrário à proposta de George Bush.
- Meu amor é amplo e total pelos dois, mas, se não há uma resposta positiva ao meu pedido de casamento, vou continuar fazendo amor com a Alca e o Mercosul - disse em entrevista ontem, quando os representantes dos 34 países participantes da Cúpula convocaram uma reunião extraordinária à tarde para tentar chegar a um acordo.
Fox também se apressou em dizer que não tinha nenhum problema pessoal com o anfitrião do encontro, o presidente argentino, Néstor Kirchner, contrário à Alca. Na sexta-feira, no entanto, o político mexicano provocou mal-estar ao declarar que uma audiência entre os dois havia sido desmarcada pelo cerimonial de Kirchner, fato negado pela chancelaria argentina. Também na sexta-feira, Fox foi o único presidente a não aplaudir o discurso do colega na abertura da Cúpula das Américas.
A reunião extraordinária aconteceu quando todos os presidentes convidados já se preparavam para ir embora, deixando em Mar del Plata seus diplomatas e chanceleres com a missão de tentar resolver o impasse.
De um lado, estavam EUA, apoiados por México, Canadá e países do Caribe e América Central, que queriam impor uma declaração marcando uma data para a retomada das negociações para a implantação da Alca, que seria abril de 2006.
De outro, os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) e Venezuela, que, ao fim da tarde de ontem, voltaram a propor um documento em que ficasse claro não haver condições para a execução da idéia dos americanos, sem marcar nenhuma data para o reinício das negociações.
Por último, estava em discussão, ainda, uma proposta mais diplomática, que acabou vencendo, segundo a qual no documento final deveria ser incluído um parágrafo que expressasse todas as posturas do grupo e que não havia consenso.
Antes do acordo, o presidente argentino chegou a fazer um pedido oficial a todos os países presentes, já acenando com a possibilidade de o encontro terminar com um documento que apresentasse todas as tendências.
- Não somos fundamentalistas. Nesse encontro, temos que dar um sinal ao mundo. A unanimidade não é boa.