Título: Foras-da-lei
Autor: Maria Lucia Victor Barbosa
Fonte: Jornal do Brasil, 06/11/2005, Opiniao, p. A15
A reportagem da revista Veja versando sobre US$ 3 milhões, que teriam vindo de Cuba em garrafas de rum e uísque entre agosto e setembro de 2002 para incrementar o caixa dois do candidato Luiz Inácio, foi classificada por governistas e defensores do governo do PT como fantasiosa. E antes que mais esse escândalo caia no esquecimento, ou seja ultrapassado por outros como o mais recente que indica que R$ 10 mi foram repassados via Marcos Valério para o caixa dois do PT, volto a ele.
Entre os homens do presidente, o influente assessor da presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, foi um dos primeiros que se posicionou de maneira veemente contra a denúncia. O grande artífice de nossa desastrada e terceiro-mundista política externa, de Paris, ironizou e desclassificou a matéria como uma ''fabulação absoluta''. Já o ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, alegou transparência nos gastos de campanha do PT (ele parece desconhecer os escândalos do governo a que pertence) e taxou a publicação de ''especulações que não passam de fantasia''. No Congresso, a tropa de choque do governo entrou em ebulição e passou a repetir como um mantra que a reportagem era ''frágil'' e ''fantasiosa''. Quanto ao presidente do PT, Ricardo Berzoine, conforme seu estilo, ameaçou processar a Veja. Curiosamente foram poupados os companheiros ou ex-companheiros Rogério Buratti e Vladimir Poleto, ex-assessores do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que fizeram as denúncias. Em compensação, mais uma vez culpou-se a oposição. Para culminar, o próprio presidente Luiz Inácio prometeu guerra aos opositores que a rigor não existem a não ser alguns poucos heróis da resistência. Repetiu-se, assim, a conhecida técnica de defesa petista: desmerecer, desclassificar, ameaçar, esmagar.
Pode ser que essa história das garrafas de fato pareça algo mirabolante, lembrando apenas que já foi pego petista com dólar na cueca o que, convenhamos, é um método inusitado de transportar dinheiro. Por sinal, nada ficou esclarecido sobre o episódio que envolveu o assessor do deputado irmão de José Genoino, assim como não se houve mais falar dos três. De todo modo, seria interessante considerar alguns aspectos que decorrem da matéria da Veja:
A reação quase histérica que tomou conta dos governistas, ainda que tenham afirmado reiteradamente que tudo não passa de fantasia, não deixa de demonstrar que os petistas sabem que, se tal denúncia tivesse atingido o governo anterior, eles teriam se encarregado prontamente de derrubar o presidente da República.
Não se pode alegar que é mera suposição sem provas os elos fraternos que unem Luiz Inácio e Fidel Castro, castristas, petistas e esquerdistas de todas as nuances. Pode-se dizer, sem desdouro para Hugo Chávez, que Cuba, juntamente à cerveja, é uma de nossas paixões nacionais. Como explica o cubano Carlos Alberto Montaner na sua magistral obra Manual do perfeito idiota latino-americano, ''a relação sentimental mais íntima e duradoura do idiota latino-americano é com a revolução cubana''. E no sentido de maior esclarecimento transcrevo aqui a conceituação de idiota que Álvaro Vargas Lhosa dá no prefácio da referida obra:
''A idiotice que impregna esse manual não é a congênita... É de outra índole. Ela não é só latino-americana, corre como azougue e deita raízes em qualquer parte. Postiça, deliberada e eleita, se adota por preguiça intelectual, modorra ética e oportunismo civil. Ela é ideológica e política, mas, acima de tudo, frívola, pois revela abdicação de pensar por conta própria, de cotejar as palavras com os fatos, de questionar a retórica que faz às vezes de pensamento. Ela é a beataria da moda reinante, o deixar-se levar sempre pela corrente, pela religião do estereótipo e pelo lugar comum''.
Porém, uma coisa é certa: o ditador Fidel Castro não dispõe de tão vultosa quantia que teria sido enviada ao companheiro Lula. Na verdade, Cuba, além de tabaco, cana de açúcar e prostituição, hoje sobrevive com a ajuda do Brasil e, certamente com a do companheiro Chávez. Entretanto, não é tão fantasioso assim imaginar o pequeno e pobre país caribenho como ponte de trambique internacional. E Duda Mendonça (que sumiu também) não deixa ninguém mentir sobre a existência da origem externa de recursos para o caixa 2 do PT.
Finalmente, duas constatações emergem como efeitos colaterais da denúncia da Veja: a impressionante impunidade relativa ao governo petista, o que inclui o presidente da República, e o estado de anestesia geral do povo que a tudo assiste com a indiferença do cúmplice ou do alienado como se tudo não passasse de piada de salão. Não é à-toa que fomos chamados de fora-da-lei.