Título: Prazo de CPI cria mais um atrito
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 10/11/2005, País, p. A5

BRASÍLIA - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), adiou ontem a leitura do requerimento que prorroga por seis meses os trabalhos da CPI dos Correios. Antes de suspender a sessão, o presidente do Senado disse que precisava conferir o número de assinaturas do requerimento. A decisão foi criticada por líderes de partidos da oposição. O líder do PFL, deputado Rodrigo Maia (RJ), lembrou que o requerimento já tem o número de assinaturas exigido e que o documento não precisa ser votado, basta ser lido para garantir a prorrogação da comissão que investiga a empresa os Correios. Maia considerou o adiamento da leitura uma manobra regimental e disse que o governo quer ganhar tempo. O prazo para a CPI funcionar vence no fim deste mês. O líder do PSDB, deputado Alberto Goldman (SP), afirmou temer que o governo tente retirar assinaturas do documento, como ocorreu antes da criação da comissão de inquérito. Ele caracterizou esse procedimento como ''vergonhoso''. Para Goldman, os trabalhos da CPI devem ser prorrogados porque os parlamentares ainda não tiveram acesso a informações como as referentes às contas do publicitário Duda Mendonça no exterior. A oposição ameaçou obstruir a votação de outras matérias na pauta do Congresso caso o requerimento não seja lido. Já o líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), é contra a prorrogação do prazo. Ele argumentou que 180 dias é um prazo ''razoável'' para que a CPI investigue tudo o que for possível. Fontana lembrou que, com a conclusão dos trabalhos e a aprovação do relatório final, o Ministério Público, a Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União poderão continuar investigações. - Imaginar que a CPI esgotaria todas as investigações é uma idéia irreal - argumentou. Fontana teme que a prorrogação dos trabalhos vá prejudicar as investigações que poderiam ser contaminadas pelo processo eleitoral de 2006, o que paralisaria o Congresso. Em meio à briga por prorrogação ou não, a sub-relatoria de movimentação financeira da comissão cancelou o depoimento da ex-assessora financeira do PT de Londrina Soraya Garcia que aconteceria ontem. Soraya foi assessora financeira da campanha para a reeleição do petista Nedson Micheleti à prefeitura de Londrina (PR), no ano passado e em agosto disse que o então ministro da Casa Civil José Dirceu levou R$ 300 mil em espécie ao comitê da campanha petista em setembro de 2004. Dirceu nega. Durante a tarde, especulou-se em Brasília que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria pedido o cancelamento do depoimento. O presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral (PT-MS), se reuniu com Lula ontem, mas negou a informação e disse que o tema não foi tratado no encontro. O senador afirmou que a sessão foi adiada, porque os integrantes da comissão querem se concentrar na conclusão do relatório sobre movimentação financeira que será apresentado hoje. A PF abriu inquérito para investigar um suposto caixa 2 do PT em Londrina após Soraya procurar a Promotoria Eleitoral dizendo ter havido sonegação de R$ 6,5 milhões nos gastos apresentados pelo comitê financeiro à Justiça Eleitoral.