Título: Palocci venceu, mas não convenceu
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Fonte: Jornal do Brasil, 17/11/2005, Economia & Negócios, p. A18

Pálido, sem sinal do sorriso plastificado que sempre marcou seus pronunciamentos à frente da Fazenda, Antonio Palocci começou mal seu discurso na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Titubeou e seu tom de voz era queixoso, ao enumerar as muitas conquistas no front econômico. Exagerou ao prestar tributo a todos os governos anteriores por seus esforços em prol da estabilização macroeconômica - incluindo no rol até o ex-presidente Sarney, responsável pela criação do Tesouro Nacional, que tirou o giro das contas públicas da alçada do Banco do Brasil. Por alguns instantes, pareceu um discurso de despedida. De quem se sente injustiçado. Poucos minutos depois, o ministro recuperou a boa forma. Reafirmou a necessidade de controlar a inflação e defendeu a gestão da dívida pública, negando que o governo esteja ''enxugando gelo, como muitos acreditam''. Elegante, não se furtou a citar nominalmente a ministra Dilma Rousseff, fazendo coro às preocupações com a retomada do investimento público.

O mercado achou bonito. Especulava-se nas mesas de operações, principalmente na quinta e na sexta-feira, sobre dossiês e novas investigações sobre a gestão de Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto. Com a respiração presa, diante da surpreendente antecipação do depoimento à CAE, os investidores se aliviaram quando ficou evidente que ninguém bateria duramente no ministro, querido nas fileiras pefelê-tucanas.

Passou quase batida a contradição da própria presença do ministro na comissão, que não era mesmo o foro adequado para responder às denúncias. A visita ao Senado, além de tumultuar a tramitação da MP 258, que cria a Super-Receita e precisa ser apreciada até amanhã sob pena de caducar, é inócua do ponto de vista das CPIs. Palocci não se exime da responsabilidade de ir depor, caso seja mesmo convocado. O diabo é que até o senador-kickboxer Arthur Virgílio (PSDB-AM) foi ponderado e anunciou, antes do discurso ministerial, que se absteria de tratar ali de possíveis falcatruas da turma de Ribeirão.

É certo que Palocci ganha fôlego em sua cruzada pessoal para permanecer no cargo. Talvez seu aparente abatimento, no início de sua fala, seja sinal de que o companheiro-mor lhe está puxando o tapete. O presidente Lula discursou horas antes e reiterou a defesa da política econômica. Sobre o ministro, nenhuma palavra.

Resta entender por que Lula está tão disposto a abrir mão do último expoente do chamado núcleo duro. Quer evitar desgastes com a divulgação de informações às quais o público ainda não teve acesso? Ou quer atender às bases petistas, ávidas em assaltar os cofres públicos, liberando recursos sem critério, para pavimentar o caminho da reeleição?

Um ponto ficou por ser melhor abordado. A questão da responsabilidade fiscal é, ou deveria ser, um compromisso nacional, e não de um ou outro ministro. O tamanho do aperto (também chamado de superávit primário) pode até ficar em segundo plano, desde que se observe a qualidade dos gastos públicos. Estamos, cada vez mais, torrando dinheiro do contribuinte com folha de pagamento do funcionalismo e investindo menos em obras de infra-estrutura. Gastamos mal. E perdemos tempo com intrigas palacianas. A conta desse atraso não ficará só para o próximo governo, mas para todos nós.

Concorrência na linha Telemar e Vésper (ainda existe?) que se cuidem. A GVT, bem-sucedida empresa-espelho criada para fazer frente à Brasil Telecom, expande suas operações. A operadora de telefonia fixa anuncia hoje investimentos pesados no mercado do Rio.

Valei, Santa Edwiges A Caixa Econômica Federal emprestou R$ 9,7 milhões em sua linha de antecipação de 13º salário, 333% mais do que em igual período do ano passado. Sinal de que o trabalhador está mais endividado. Mas não custa lembrar: este tipo de crédito só vale a pena para pagar dívidas com juros mais altos, tipo cheque especial ou cartão de crédito.

Guerra da refinaria A Baixada Fluminense se mobiliza para brigar pela nova refinaria da Petrobras no estado. A associação de prefeitos da região lança amanhã, na ACRJ, movimento pela instalação da unidade petroquímica em Itaguaí. Enfrentará o forte lobby em favor do Norte Fluminense, terra do casal Garotinho. O investimento inicial previsto pela estatal gira em torno de R$ 3 bilhões.

Marcelo Kischinhevsky (Com Samantha Lima)