Título: Otimismo adiado na indústria do Rio
Autor: Samantha Lima
Fonte: Jornal do Brasil, 18/11/2005, Economia & Negócios, p. A17
A expectativa de queda na taxa de juros permitiu à indústria fluminense recuperar a confiança nos negócios aos poucos, mas, com o arrefecimento da atividade econômica, a maioria dos empresários ainda avalia de forma negativa o momento atual. O índice de confiança do empresário industrial, medido pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), avançou de 51,5 para 52,8 pontos, em uma escala até 100 pontos, entre os meses de julho e outubro. Já o indicador que avalia o momento presente subiu de 42,6 para 44 ¿ mas, na prática, mais da metade dos empresários está pessimista com os negócios neste fim de ano. A melhora na avaliação do momento atual ocorre de forma insuficiente para compensar a piora na avaliação da conjuntura verificada entre o primeiro e o segundo trimestres, na opinião da chefe do Departamento de Pesquisas Econômicas da Firjan, Luciana de Sá.
¿ O comportamento do índice de confiança do empresário mostra que houve uma recuperação na margem, mas insuficiente para atingir o mesmo ponto do fim do ano passado, quando o índice estava em 60,9, e o início deste ano. Ainda é conseqüência do esfriamento da atividade econômica no terceiro semestre ¿ avalia. Em janeiro, o indicador registrou 64,2 pontos, o maior desde 2002.
No terceiro trimestre, a produção industrial, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acumulou queda de 0,7% em relação aos três meses anteriores. Segundo a economista, ainda que tímida, a melhora no indicador é puxada pela perspectiva de queda dos juros. A taxa básica (Selic), que atingiu 19,75% ao ano entre maio e agosto, entrou em ciclo de queda, e a expectativa do mercado é que encerre em 18% este ano e em 15,75% em 2006, segundo pesquisa do Banco Central realizada na última semana.
Para Luciana, a crise política impede uma melhora mais significativa nas expectativas, mas de forma indireta.
¿ Para o empresário, está claro que a crise até o momento da pesquisa não havia contaminado a economia. O problema é que as investigações no Congresso travam a agenda de reformas. A carga tributária e a burocracia são grandes entraves ao setor industrial ¿ explica.
Em relação a 2006, a expectativa é mais positiva, especialmente pela queda dos juros.
¿ A inflação em queda, que tem influência direta na melhora da renda, também permite avanço nas expectativas de que a atividade industrial retome o ritmo. Em termos macroeconômicos, a grande preocupação é garantir o crescimento no longo prazo. E, nisso, a questão fiscal é um grande nó.
O empresário Gilberto Bittencourt é um exemplo da cautela do empresário com o momento atual. Ele é um dos sócios da Print Damf, fábrica de formulários em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
¿ O mercado está muito estranho. Não há uma tendência definida. Viemos equilibrados no meio do ano, mas, entre junho e setembro, o faturamento caiu cerca de 30%. Nossos fornecedores estão nos perguntando por que não fazemos encomenda. É porque nossos clientes também não estão fazendo pedidos. Não estamos enxergando melhora neste fim de ano ¿ comenta o empresário.
A fábrica consome 5 toneladas de insumo (papel autocopiativo) por mês. O uso da capacidade instalada está em torno de 50%, segundo Bittencourt. Há sete anos, chegou a ter dois turnos, quando estava utilizando cerca de 90% da capacidade. No ano passado, o faturamento foi de R$ 1 milhão. De acordo como empresário, o negócio este ano, com 15 empresários, ¿tende a ter o mesmo resultado de 2004¿.
¿ Para o ano que vem, estamos nos esforçando para crescer 10%. Temos capacidade, fornecedores, uma boa equipe de marketing que acabamos de formar. Estou otimista, apesar das dificuldades presentes ¿ aposta Bittencourt.
A pesquisa da Firjan mostrou que, por regiões, a avaliação do momento atual é pior na região Serrana, com 37,9 pontos. E na Baixada Fluminense estão os mais otimistas. No horizonte de seis meses, sete das oito regiões pesquisadas declararam-se otimistas em relação ao futuro. Os índices variaram entre 53,0 e 66,2. Leste, Centro-Norte e Baixada superaram a média de confiança do estado. Já os pessimistas estão no Noroeste, a região mais atrasada do estado.
¿ As que apresentam as melhores perspectivas são as que concentram os melhores pólos industriais, com maior aplicação de tecnologia. Caso da Baixada com o setor químico, o Sul com as fábricas de autopeças e siderurgia, além do petróleo no Norte e Leste ¿ explica Luciana.