Título: Dirceu será cassado, prevê Lula
Autor: Por Augusto Nunes*
Fonte: Jornal do Brasil, 08/11/2005, País, p. A2
A mais importante cadeira do 1.000º programa Roda Viva, gravado ontem na hora do almoço no Palácio do Planalto, parece predestinada a decorar momentos difíceis. Seu primeiro dono foi Getúlio Vargas, que passou horas sentado na peça em coro bege, cismando no drama de agosto de 1954, em busca de alguma saída além do tiro no coração. Nesta segunda-feira, Luiz Inácio Lula da Silva, herdeiro do cargo e da cadeira de Getúlio, usou-a para enfrentar, pela primeira vez sem normas restritivas, jornalistas dispostos a fazer perguntas entaladas há quase seis meses nas gargantas do Brasil. "Tenho responsabilidade sobre tudo o que está acontecendo, para o bem ou para o mal", reconheceu. Terno azul-marinho, camisa branca, meias e sapatos pretos, gravata vermelha com riscas em azul e branco, Lula entrou na sala de audiências ao lado do gabinete presidencial minutos depois de 11h30 da manhã. Quando tudo terminou, perto das 14 horas, poucas respostas haviam sido plenamente satisfatórias. Mas o presidente ao menos ouvira as mais relevantes questões acumuladas ao longo da crise desencadeada no começo de junho e sem prazo para terminar. Nenhuma ficara sem réplica.
Com a apresentação de Paulo Markun, participaram do programa cinco antigos âncoras: Heródoto Barbeiro, Matinas Suzuki, Rodolfo Konder, Roseli Tardelli e Augusto Nunes. Não foi reproduzido o cenário de arena romana.
Ao entrar no salão decorado por quadros de Djanira e Di Cavalcanti, Lula encontrou os jornalistas dispostos em arco. Tentou camuflar o desconforto com alusões à goleada imposta ao Santos, na véspera, pelo Corinthians, time do coração do presidente. ¿Sete a um é uma coisa histórica¿, repetiu Lula. ¿Principalmente para a minha geração, que passou boa parte da vida sendo humilhada pelo Santos de Pelé¿. Rodolfo Konder aproveitou a alusão à identidade para brincar com a recente chegada do entrevistado aos 60 anos. ¿O senhor deve saber que, se um sessentão acorda e não sente dores, isso significa que está morto...¿, brincou o jornalista Rodolfo Konder.
Lula abriu um sorriso largo, mas os comentários seguintes denunciaram um homem em fase de aquecimento para a conversa sóbria que viria. ¿Estou fazendo uma hora de esteira por dia, a 4 milhas por hora¿, informou Lula. ¿Isso dá uns seis quilômetros¿. Tem-se sentido muito bem, garantiu. (Para quem acha que fazer exercícios em esteira só melhor que leitura, como já comparou o presidente, deve ser um esforço e tanto).
Durante quase duas horas, ele teria de esforçar-se ainda mais para preservar o equilíbrio aperfeiçoado em milhares de palanques, entrevistas e, sobretudo, improvisos. Durante o programa dividido em seis blocos, aproveitou três intervalos para ir ao banheiro. Em três ocasiões, a maquiladora retocou intervenções do suor. A temperatura ambiente esteve agradável. O clima da conversa, nem sempre.