Título: A descoordenação entre Tesouro e BC
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 10/11/2005, Economia & Negócios, p. A18
O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, tem cobrado mais coordenação na política econômica, alfinetando o Banco Central devido à equação formada por juros altos e programas de expansão do crédito, principalmente via desconto em folha. Ontem, no entanto, protagonizou cena explícita de falta de sintonia, com o anúncio de ampliação de captação externa levando o dólar à incrível faixa de R$ 2,16. É elementar: com o forte fluxo de moeda americana rumo ao Brasil, na esteira dos juros estratosféricos e do vigoroso saldo comercial, a tendência é que o câmbio enfraqueça cada vez mais. Portanto, na visão de muitos investidores, o Tesouro só deveria ter reaberto a captação numa ação coordenada com o Banco Central, atuando fortemente no mercado para evitar a queda livre do dólar. O tímido leilão promovido pelo BC, depois que a notícia da emissão circulava nas agências internacionais, de nada adiantou para mudar a tendência das cotações.
A área econômica do governo virou mesmo uma torre de babel. Não é à toa que promete-se mais investimento em infra-estrutura, enquanto o dinheiro permanece contingenciado em nome do aperto fiscal; nem que a produção industrial caia, enquanto o presidente Lula comemora o maior crescimento dos últimos 20 anos.
Toda a competitividade dos produtos brasileiros desde a maxidesvalorização de 1999 já foi para o vinagre. Desde o início do ano, o dólar caiu 18,8% frente ao real. Curioso é que, no primeiro semestre, a desculpa oficial era de que a moeda americana estava caindo em todo o mundo - o que era verdade. Nos últimos meses, porém, a tendência se inverteu, pelo menos lá fora. Em relação ao euro, por exemplo, as verdinhas subiram 12% no mesmo período. Aqui, nada mudou: o câmbio só se fortalece. Qual será a justificativa da vez?