Título: Depoimento cercado de expectativa
Autor: Hugo Marques
Fonte: Jornal do Brasil, 16/11/2005, País, p. A5

Ex-presidente da Brasil Telecom falará hoje na CPI dos Correios, depois de faltar a convocação para correr em maratona

BRASÍLIA - A ex-presidente da Brasil Telecom, a italiana Carla Cicco, abre hoje os depoimentos da semana na CPI dos Correios. Os parlamentares vão pedir explicações sobre o esquema de financiamento do mensalão. Brasil Telecom, Amazônia Celular e Telemig Celular - controladas pelo Grupo Opportunity, de Daniel Dantas - injetaram R$ 152 milhões nas empresas de Marcos Valério, o operador do mensalão. Braço direito de Daniel Dantas, Carla Cicco faltou ao depoimento marcado para o início do mês e irritou os parlamentares ao viajar para Nova York, onde teria disputado uma maratona.

Para os parlamentares da CPI, Carla tem um agravante. Ela foi indiciada pela Polícia Federal por formação de quadrilha, corrupção ativa e divulgação de segredo, por sua ''posição superior'' na organização Kroll Associates, que espionou desafetos do banqueiro Dantas.

- Tem um histórico de ações dela e de episódios envolvendo a Brasil Telecom que sem dúvida alguma só servem para ampliar as desconfianças que nós todos temos em relação a essa gente - afirmou o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ).

O parlamentar acha muito grande o volume de recursos das telefônicas para o valerioduto. Este ano, a Brasil Telecom firmou mais dois contratos com a empresa de Marcos Valério, no valor de R$ 50 milhões, mas suspendeu a negociação pouco antes de o então deputado Roberto Jefferson levantar a denúncia da existência do mensalão. Paes quer detalhar a eventual participação das Dantas no valerioduto.

- Todo mundo que manteve relação com esse cidadão nos últimos dois ou três anos passa a ser suspeito. Mas no caso da Brasil Telecom, a suspeita é maior porque o volume de recursos repassados é uma monstruosidade - aponta o deputado Eduardo Paes.

O deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR) quer saber de Carla Cicco os motivos que levaram todas as operadoras de telefonia a aplicar dinheiro nas empresas de Valério. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) acha ''grave'' o envolvimento de Carla com empresa Kroll Associates e antecipa que a italiana tem de dar explicações também sobre a espionagem. Para Dias, são ''comprometedores'' os indícios de envolvimento de Dantas com o mensalão.

- São valores exorbitantes. Fica difícil imaginar um gasto deste porte em publicidade - afirma Dias.

A inexistência de contabilidade nas empresas de Valério, diz Álvaro Dias, é um indício de lavagem de dinheiro. Para o senador, Daniel Dantas tinha interesses 'indesmentíveis' junto ao governo do PT e Valério era um dos operadores que teriam intermediado estes interesses.

Álvaro Dias afirma que a turbulência entre o então ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Luiz Gushiken envolveu a disputa dentro do governo em torno dos interesses de Daniel Dantas. Para o senador, Gushiken teria defendido os interesses dos fundos de pensão, que eram divergentes em relação aos interesses de Dantas. O banqueiro perdeu o controle da Brasil Telecom numa disputa acirrada com os fundos de pensão e o Citigroup.

- Sei que o Zé Dirceu defendia interesses do Daniel Dantas. A partir daí houve uma turbulência na esfera do governo, em função de posições divergentes do Zé Dirceu e do Gushiken - afirma Álvaro Dias.

Carla Cicco não deverá iniciar seu depoimento com uma explanação, seguindo uma tradição na CPI. Um dos advogados da italiana, Nélio Machado, afirmou ontem que ela vai se apresentar hoje para responder a todas as dúvidas dos parlamentares.

- Não há nenhuma preocupação. Ela vai esclarecer o que for perguntado. Ela é uma profissional altamente conceituada - diz Machado.

Na CPI dos Bingos, o depoimento será do presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Paulo Okamoto, amigo do presidente Luiz Ináico Lula da Silva. Okamoto pagou R$ 30 mil de dívidas de Lula sem demonstrar a origem do dinheiro.

Outro que será ouvido hoje na CPI dos Bingos é Afrânio Nabuco, que teria assessorado a multinacional Gtech, que fez renovação supostamente fraudulenta de contrato com a Caixa Econômica Federal.

A sub-relatoria de Fontes Financeiras da CPI dos Coreios vai colher depoimento de Solange Pereira de Oliveira, ex-secretária do tesoureiro Delúbio Soares. Vai ouvir também Geíza Dias, funcionária da SMP&B Publicidade, de Marcos Valério