Título: O dia de Palocci
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/11/2005, Opiniao, p. A14
Gesto sublinhado pela sensatez, a decisão de antecipar o depoimento do ministro Antonio Palocci na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado tem efeitos positivos para o governo e para a economia. Originalmente agendada para o dia 22, a presença do chefe da Fazenda tem o mérito de encerrar um ruidoso capítulo da história de crises que afligem o Palácio do Planalto. Palocci, afinal, vai ao Senado com a missão de rebater as acusações contra a sua gestão à frente da Prefeitura de Ribeirão Preto. Caberá a ele esclarecer todas as versões que surgiram nas últimas semanas, segundo as quais teria participado dos desvios em que incorreu o PT.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece estar convencido do sucesso de seu principal ministro - justamente aquele a quem cabe a responsabilidade pelas maiores vitórias da administração petista. Segundo o Palácio do Planalto, o fim do silêncio poderá dar um basta aos rumores de sua saída do governo depois de incluído na galeria de denúncias contra petistas - com o agravante de ter sido questionado publicamente pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Bem ou mal-sucedido nas explicações dirigidas aos senadores, Palocci deflagrará hoje um novo divisor de águas do governo. Como o Jornal do Brasil vem insistindo em editoriais, é incômodo que o comandante da equipe econômica esteja o tempo inteiro na linha de tiro do vasto arsenal de ataques originados do próprio governo. Tampouco que a figura do ministro da Fazenda migre das páginas econômicas para o noticiário sobre o escândalo de corrupção.
É correta a intenção do Planalto de dirimir incertezas que pairam sobre os seus mais altos líderes. O depoimento de Palocci pode livrar o ministro da exposição às suspeitas. Ou ajudar a encerrar sua passagem pelo governo - caso não consiga explicar-se adequadamente -, conduzindo à arriscada operação de substituição por alguém de igual competência e que, ao mesmo tempo, não apresente abalos políticos.
Infelizmente, contudo, desde que a crise atingiu o ministro da Fazenda, o governo tem promovido alguns passos erráticos. Notícias díspares se espalharam nos últimos dias: de um lado, revelou-se a intenção do presidente Lula de pôr um ponto final na situação, anunciando em discurso oficial irrestrito apoio a Palocci. Por outro, anunciaram-se estudos de nomes alternativos numa eventual substituição ao atual ministro. Acrescente-se a desastrada operação que tentou abortar a prorrogação dos trabalhos da CPI dos Correios e tem-se um nebuloso retrato do comportamento trôpego do Planalto.
O complexo terreno da economia, no entanto, não admite hesitações. Sobretudo porque a Palocci coube o mérito de emprestar credibilidade à opção do governo de abandonar velhas teses petistas e adotar como políticas de Estado a responsabilidade fiscal, a estabilidade monetária e a previsibilidade na condução da política econômica - mesmo diante dos bravejos das cassandras habituais.
Dos senadores, espera-se espírito público e maturidade política. Hoje não será dia de fissuras partidárias e conveniências eleitorais. O Brasil espera respostas para as lacunas abertas pelas denúncias e não turbulências estéreis que mexam com a economia.