Título: A resistência de Dirceu
Autor: MAURO SANTAYA NA
Fonte: Jornal do Brasil, 21/11/2005, País, p. A2

O deputado José Dirceu, que defende seu mandato com bravura, talvez não tenha antes compreendido que, no regime presidencialista, não há primeiros-ministros. Os governos militares, por sua singularidade, os tiveram - e o exemplo mais notável é o de Delfim -, mas são estorvos indesejáveis no presidencialismo. O chefe de governo, por mais que dissimule o sentimento, não pode parecer tutelado, ainda que admire e respeite o colaborador. Mais grave é a reação dos outros ministros, que - de acordo com as normas constitucionais - só devem obedecer ao presidente. Fosse efetiva ou não a proeminência de José Dirceu, todos o viam como uma espécie de premiê. Havia a idéia de que o presidente reinava, e o então ministro governava. Essa percepção, real ou imaginária, trouxe, como é natural, ciúmes e mal-estar no conjunto do governo e fora dele. Antes, nenhum presidente civil admitira ministros maiores do que os outros. Juscelino não titubeou em demitir Lucas Lopes, o mais operoso colaborador, do Ministério da Fazenda, a fim de manter a autoridade. No presidencialismo todos os ministros devem ser iguais. Acrescente-se que, desde o primeiro momento, houve o desencontro ideológico entre o ativo militante José Dirceu e o ministro da Fazenda, chefe formal da equipe econômica. O chefe da Casa Civil aceitara, em princípio, como outros membros históricos do PT, o compromisso de "respeitar os contratos" firmados pelo governo anterior. Os tecnocratas, nutridos pelos interesses de Wall Street, que criaram normas tidas como sagradas no manuseio das finanças e da economia, fazem da política econômica um bicho de sete cabeças. Só eles são os senhores das carícias que domem a hidra do mercado, já que ninguém tem a força de Hércules para liquidá-la. Mas, tanto ele, quanto centenas de outros militantes históricos do PT, acreditavam que, transpostos os riscos mais graves da transição, o governo viesse a afrouxar o arrocho e permitisse, com a redução dos juros, a retomada mais ousada do desenvolvimento. Quando houve certa redução da taxa, a resposta positiva foi imediata - mas, em seguida, voltou a subir.

O fato é que o mercado não é a hidra de Lerna. Sobre a arrogância dos economistas acadêmicos há a sentença definitiva de Galbraith: se os economistas fossem infalíveis, todos seriam ricos. O melhor ministro da economia da História foi José, do Egito, que soube combinar a difícil castidade com o sonho. Como tudo, na vida, a administração da economia exige bom senso, e talvez mais imaginação do que as equações clássicas da econometria. Quando surgiram as denúncias de escândalo, houve clara intenção de atingir Dirceu, a partir da entrevista de Roberto Jefferson. Era preciso bater no pilar mais forte, a fim de abalar a estrutura do governo. Dirceu havia cometido o erro de não investigar a fundo o que fizera Waldomiro Diniz e, com isso, deixou a guarda aberta.

É preciso reconhecer a bravura com a qual se vem defendendo o ex-ministro. Wilson Figueiredo lembrou-me, e bem, o caso de George Dimitrov, o líder comunista búlgaro, que se defendeu, diante de um tribunal nazista, da acusação de haver incendiado o Reichstag, em 1933, e conseguiu, com sua obstinação, provar a inocência, salvando-se de uma condenação já decidida.

O ex-ministro pode ter sido vaidoso, e dado a impressão de que era quem mandava no governo. Criou adversários ressentidos, na administração e fora dela. As acusações de que é alvo não foram devidamente comprovadas, e ele está ganhando a batalha política. Poderia ter renunciado, como outros, que hoje o acusam, fizeram, e garantir a reeleição, mas não o fez. Qualquer que venha a ser o resultado do confronto, Dirceu merece respeito pela disposição de luta. O que importa, nas circunstâncias em que está vivendo, é resistir. Todos podemos ser vencidos pelos inimigos, mas sem a desonra da capitulação. E, pelo que parece, se cair agora, Dirceu cairá de pé, para levantar-se depois.