Título: Poluentes interferem na concepção
Autor: Claudia Bojunga
Fonte: Jornal do Brasil, 21/11/2005, Internacional, p. A9
Pesquisadores brasileiros descobriram que a poluição interfere na definição do sexo dos bebês. O estudo, realizado na cidade de São Paulo entre 2001 e 2003 e publicado na edição de outubro da revista Nature, é o primeiro a demonstrar uma relação entre a baixa qualidade do ar e o nascimento de um número maior de meninas.
- Os mecanismos dos espermatozóides que carregam o cromossomo Y (que define o sexo masculino) são afetados pela poluição - explica ao JB o urologista Jorge Hallak, coordenador do trabalho acadêmico da equipe da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, a proporção do X e do Y acaba ficando alterada.
Para a análise, foram observados 110 mil registros de nascimento de 29 áreas com estações de medições de poluentes da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental, como o Parque Dom Pedro e a Sé. As regiões foram divididas em três grupos, de acordo com os níveis de poluentes. Nos locais mais poluídos, o índice de meninas chegou a 49,3% em comparação a 48,3%, nas áreas com intensidade menor de poluição. A diferença de 1% corresponde ao nascimento de 1180 bebês a mais do sexo feminino.
Em todos os locais, a quantidade de poluentes do ar foi alta, em média de 70mg/m³ - muito além do máximo de 50 mg/m³, permitido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente.
Segundo Hallak, 1% não é um índice pequeno se for considerado que existe uma tendência da natureza para que nasça uma quantidade maior de machos do que fêmeas. Esse é um mecanismo que ocorre para equilibrar a proporção entre os sexos, já que entre os machos há uma alta taxa de mortalidade no primeiro ano de vida.
- Temos indícios que apontam a inversão da razão entre o número de homens e mulheres - observa pesquisador, diretor-executivo do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas.
Essa mudança pode ser atribuída a fatores externos. Mas ainda não se descobriu como a poluição age no sistema reprodutivo - o tópico está sendo tratado na segunda fase do estudo da USP. Pesquisadores vêm coletando o esperma de cerca de 200 homens e de quatro gerações de ratos, que serão analisados em laboratório.
Para se certificar de que o número maior de nascimento de meninas não foi influenciado por outros fatores, os cientistas verificaram a ação dos poluentes na reprodução de ratos. Os resultados foram semelhantes. Vinte e cinco casais de roedores foram divididos em dois grupos. Um deles foi exposto a uma alta intensidade de poluição, e o outro, a níveis normais. No primeiro, nasceram três filhotes fêmeas a mais do que no segundo.
Também foi observado nos animais uma contagem menor de espermatozóides no sêmen, além de anormalidades no formato da célula.
- Isso mostra que a poluição também afeta a fertilidade - adverte o urologista. - É importante achar um diagnóstico para a dificuldade de ter filhos, para fazer um tratamento de acordo com a causa do problema.
Hallak considera que, em se concluindo que o motivo da infertilidade é a poluição, mais eficiente do que realizar uma fertilização in vitro seria tratar os pacientes com antioxidantes.