Título: As duas equipes de Lula
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 13/11/2005, País, p. A2
Parte do atual ministério será incorporada ao núcleo que vai trabalhar na campanha da reeleição
BRASÍLIA - A crise política produziu uma inflexão na estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para as eleições de 2006. Quando anunciou a mais recente reforma na Esplanada, o presidente imaginava seguir com o atual ministério até o último dia de governo. Há duas semanas, porém, Lula comunicou aos ministros que pretende dividir a equipe em dois grupos a partir de abril do próximo ano: os que permanecerão no governo até o fim de 2006 e aqueles que serão incorporados ao núcleo da campanha para a reeleição.
Nas conversas reservadas, sinalizou que o ministro da Coordenação Política, Jaques Wagner, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, o ex-ministro hoje chefe do NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos) Luiz Gushiken e Tarso Genro serão os coordenadores da campanha.
Também deverão compor a equipe da reeleição os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, Luiz Dulci, da Secretaria-Geral, o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, os ministros da Integração Nacional, Ciro Gomes, da Fazenda, Antonio Palocci e o presidente do Sebrae, Paulo Okamoto. Desse último grupo, no entanto, nem todos precisariam prescindir necessariamente de seus cargos no governo. A não ser aqueles designados para uma função de coordenação ainda indefinida.
Quem o presidente descarta tirar do governo para integrar o núcleo de campanha é a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Avalia que a ministra se impôs e entende como poucos o funcionamento da máquina governista.
Para coordenador da área de comunicação, função exercida por Gushiken na campanha de 2002, existe a possibilidade de o presidente repatriar o ex-secretário de imprensa, Ricardo Kotscho, uma vez que há uma avaliação no governo de que o porta-voz André Singer não se enquadraria no perfil exigido para o posto. Pesa a favor de Kotscho o bom trânsito no governo, no PT e redações dos principais jornais do país. Resta saber se ele estaria disposto a aceitar o convite. Kotscho deixou o governo no final de 2004 dizendo-se cansado da liturgia do cargo e saudoso da família.
O mais cotado para assumir a coordenação-geral da campanha, papel que coube ao deputado José Dirceu (PT-SP) nas últimas eleições, é o ministro Jaques Wagner. O presidente Lula gosta do desempenho de Wagner à frente da Coordenação Política. Considera que o baiano tem jeito para o cargo e cansa de elogiar o fato de ele transitar com desenvoltura tanto entre os políticos quanto no meio empresarial, prática aperfeiçoada durante gestão no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o chamado Conselhão. O ministro só não assumirá a função se Lula achar mais conveniente que ele concorra ao governo da Bahia.
- O meu projeto é o projeto do presidente - tem dito o ministro.
A exemplo do que ocorreu natransição, Lula irá designar um especialista para cada setor na hora de elaborar o programa de governo. A coordenação poderá ficar a cargo do ex-ministro da Educação, Tarso Genro, com a colaboração de Marco Aurélio Garcia.
O presidente do PT, Ricardo Berzoini, deve ficar encarregado de fazer a ponte entre a campanha de Lula e a do PT e Gushiken de cuidar da estratégia. Já o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pode atuar como uma espécie de assessor jurídico e Ciro Gomes fazendo a ligação com a campanha dos partidos aliados.
O presidente decidiu separar os integrantes do núcleo da campanha e os que permanecerão até dezembro de 2006 por avaliar que o projeto da reeleição deve seguir separado da condução das atividades do governo. Ao levar a decisão a cabo, Lula repetirá o gesto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, FH modificou o núcleo palaciano em decorrência da campanha. Um dos operadores políticos do governo, por exemplo, o ex-deputado e Secretário Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, foi deslocado para o ministério da Justiça, de onde costurou as alianças do PSDB para as eleições estaduais e presidencial.