Título: O dilema no corredor da morte
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Fonte: Jornal do Brasil, 23/11/2005, Internacional, p. A7
Parte da comunidade cultural americana está mobilizada em torno de um debate que sempre dividiu o país. O ator Jamie Foxx (Oscar de melhor ator por ''Ray''), o rapper Snoop Dogg e a ativista Bianca Jagger estão entre as celebridades que pediram ao governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, o perdão a um homem condenado à morte por quatro homicídios. Uma luta contra o tempo: a execução, por injeção letal, já está marcada para o próximo dia 13. O direito a uma segunda chance em questão, já que os defensores da causa garantem que o criminoso se regenerou.
Até o presidente George Bush entrou na discussão. Em agosto, deu a Stanley uma comenda por seu empenho em, agora, promover a paz. Para Bush, Stanley demonstrou ter ''o extraordinário caráter da América.''
O preso também é uma celebridade à essa altura, quase 25 anos depois de capturado. Stanley ''Tookie'' Williams é fundador da gangue Crips, um dos grupos de jovens negros que nasceram na esteira da luta pelos direitos civis da década de 60, mas acabaram espalhando o terror em Los Angeles. Historiadores atribuem a Stanley e a Raymond Washington a criação, em 1971, do grupo, que, na avaliação de muitos, não teve maturidade e liderança política para lutar pelas mudanças sociais que exigiam.
Acabaram virando um bando de jovens delinquentes que influenciaram centenas a seguir seu estilo de vida. Stanley era um deles e foi condenado pelas mortes de quatro vítimas de assaltos atribuídos a ele, em 1979: um jovem de 23 anos e membros de uma família de chineses, de 65 (pai), 62 (mãe) e 42 (filha) anos.
Os defensores de Stanley não entram no mérito de sua culpa - o prisioneiro alega inocência, e a estratégia de defesa sempre foi colocar as provas em dúvida. A seu favor está o fato de ter passado os últimos anos fazendo apelos aos jovens para que fiquem longe das gangues. Escreveu nove livros infanto-juvenis e já foi indicado cinco vezes ao Prêmio Nobel da Paz e quatro ao de Literatura.
Foi, pelo menos uma vez, o responsável por um acordo de paz feito entre a gangue que fundou e os rivais , os Bloods. A histórica rivalidade pode ter sido - nunca foram encontradas pistas dos criminosos - o pivô dos assassinatos, no fim da década de 90, de dois jovens rappers no auge de suas carreiras, Notorious B.I.G. e Tupak Shakur.
- Ao executar Williams, excluiremos a possibilidade de reabilitação que existe em todos nós - argumenta Bianca Jagger.
- Quero dizer ao senhor, governador, que Stanley não é um homem comum. Ele me inspiro, e milhões se inspiram em mim - diz o rapper Snoop Dogg, que participou de um protesto que reuniu 1.500 pessoas em frente à prisão de San Quentin, onde Stanley cumpre pena. Jamie Foxx, que, em 2004 viveu o próprio Stanley em filme para TV, também estava lá.
- Não condenei, mas quero que seja feita Justiça por Albert - diz Lora Owens, madrasta de uma das vítimas , Albert Owens.
Épouco provável que o governador, partidário da pena de morte, conceda o perdão. Muitos acreditam que será uma decisão política, já que é candidato em 2006. Se perdoar Williams, poderia perder mais votos do que ganhar.
A discussão sobre o caso vem no momento em que paira a suspeita sobre a condenação de um preso do Texas executado em 1993, Ruben Cantu. Recentemente, reportagem do jornal Houston Chronicle denunciou que uma testemunha e um cúmplice de Cantu já prestaram depoimento dizendo que o réu era inocente.