Título: Palocci ganha afago tucano
Autor: Daniel Pereira
Fonte: Jornal do Brasil, 15/11/2005, País, p. A3

Arhur Virgílio acredita na permanência de ministro

BRASÍLIA - Depois da nota de apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no sábado, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci Filho, recebeu ontem um afago, mesmo comedido, de lideranças do PSDB e do PFL. A oposição mantém, no entanto, a promessa de jogar duro contra o ministro quando ele comparecer ao Congresso para prestar esclarecimentos sobre denúncias que o envolvem em irregularidades. E o encontro se dará antes do previsto. Amanhã, Palocci terá de ir à Câmara para falar sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica. Apesar da disposição, os opositores do Planalto não conseguem esconder a preocupação com a eventual substituição de Palocci, cuja atuação é elogiada, e sobre a escolha de seu sucessor. Compartilhando de desejos frustrados do Planalto, parlamentares tucanos e do PFL afirmam que o ideal seria a crise política passar longe da Fazenda. Como a torcida não foi suficiente e as investigações terão de ser realizadas, optaram pela cautela.

De acordo com o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), a situação de Palocci é ''difícil'' e ''grave'', mas não ''insustentável''.

- Ele jogará uma partida decisiva, como uma final de copa do mundo. Será um grande desafio (para a oposição), porque admiramos o trabalho dele - diz Virgílio, sobre os esclarecimentos que o ministro da Fazenda apresentará aos parlamentares.

Retomando discurso corrente no Congresso, o tucano acrescenta que não podem pairar dúvidas sobre o ministro da Fazenda, a fim de não melindrar o mercado. O senador Heráclito Fortes (PFL-PI) também entoa o discurso da cautela. E vai além. Ele reclama do fato de o presidente Lula não ter posto a ''mão no fogo'' por Palocci, gesto adotado em relação a outros integrantes do governo e do PT acusados de participação em irregularidades. Além disso, diz que as denúncias contra o ministro não são novas e estariam sendo ressuscitadas para fragilizá-lo no embate com a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

No início da crise política, a oposição fechou questão a favor da blindagem de Palocci. Convictos de que venceriam as eleições presidenciais de 2006, PSDB e PFL planejavam assumir o Planalto em um cenário de estabilidade econômica. A recuperação da popularidade do governo e do presidente Lula e o surgimento de novas denúncias forçaram os dois partidos a adotar uma conduta mais agressiva. Agora, o receito é com o impacto negativo da saída de Palocci e da nomeação de seu sucessor na economia brasileira.

- É evidente que o ministro Palocci está praticando a economia que defendemos. Se o governo colocar um maluco no lugar dele, jogará por terra todo o esforço realizado durante anos - declara Fortes.

Segundo Virgílio, os nomes cogitados como eventuais substitutos dão razão às preocupações. Apesar de considerado à altura do cargo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, não teria a força necessária para se contrapor à base do PT. Uma solução ''heterodoxa'', por sua vez, representaria crise de confiança.

- A sucessão será traumática - afirma Virgílio.

Para o líder tucano, o ideal para o governo é que o ministro continue no cargo. O mesmo vale para a oposição, desde que não haja desconfiança rondando Palocci e ele não permaneça enfraquecido na função. PSDB e PFL pretendem abordar três tipos de denúncias quando o homem forte da economia comparecer ao Congresso. O primeiro refere-se à sua gestão na prefeitura de Ribeirão Preto. O segundo diz respeito à sua suposta atuação como arrecadador de fundos para a campanha de Lula à Presidência da República em 2002. E o terceiro tratará de atuação de Palocci como ministro da Fazenda e se ele atuou de forma a beneficiar empresários que colaboram com o PT.