Título: Ensaio para a impunidade
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 28/11/2005, Internacional, p. A9

Os dois policiais que atiraram no eletricista Jean Charles de Menezes, matando-o por engano numa estação de metrô em Londres, vão escapar do processo judicial partindo da alegação de que ''acreditaram honestamente'' que o brasileiro era um terrorista e que usaram e a ''força cabível'' para detê-lo.

A informação foi divulgada ontem pelo jornal inglês The Sunday Times, que cita fontes no alto escalão da Scotland Yard, a polícia metropolitana de Londres, e de Whitehall, que é a região onde estão quase todos os prédios do governo britânico. Segundo os entrevistados pelo periódico, os dois policiais vão ter a defesa aceita pela promotoria.

Os advogados vão utilizar o argumento de que o grupo de elite CO19, que executou a ação, foi levado a crer por oficiais superiores que Jean Charles era um terrorista. Como prova, vão usar as comunicações por rádio do grupo e seu comando. Com isso, a acusação pode ser levada ao topo da hierarquia policial.

Uma fonte de Whitehall informou ao jornal que houve cerca de 30 casos em que atiradores da polícia foram investigados depois de terem matado um suspeito. Nenhum deles teria resultado em um processo bem sucedido.

Jean Charles de Menezes, de 27 anos, morreu na estação Stockwell, sul de Londres, em 22 de julho. Num primeiro momento, a Polícia Metropolitana disse que o brasileiro era um terrorista e que teria resistido à prisão. Depois, admitiu que se tratava de um eletricista a caminho do trabalho. A repercussão do caso botou em discussão a política de ''atirar para matar'' adotada pela polícia inglesa nas suas ações antiterror.

De acordo com a mesma fonte ouvida pelo jornal na reportagem publicada na primeira página de ontem, os agentes que passaram a informação equivocada de que Jean Charles seria um terrorista suicida podem ser responsabilizados.

- Há a possibilidade de que alguém num escalão ainda mais alto da cadeia de comando pode ter agido de maneira ilegal - disse o entrevistado.

Os dois atiradores que mataram Jean Charles foram ouvidos na semana passada pela Comissão Independente de Queixas Contra a Polícia (IPCC, na sigla em inglês), que investiga os erros de julgamentos que levaram à morte do brasileiro. A investigação do IPCC já dura quatro meses. A previsão é que as apurações independentes durem até o fim do ano, quando as conclusões vão ser repassadas ao Serviço de Processos da Coroa, que vai decidir se os policiais serão acusados.

Um dos superiores no caminho da investigação independente é o comissário-chefe da polícia londrina, Ian Blair. A comissão pediu este mês ao ministro do Interior que designe uma pessoa para investigar o comissário-chefe, Ian Blair. A IPCC responde a uma reclamação oficial contra Blair apresentada em outubro passado pela família da vítima.