Título: Líder palestino perde última batalha
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Fonte: Jornal do Brasil, 12/11/2004, Internacional, p. A7

Presidente terá funeral de Estado hoje no Cairo

Depois de 13 dias de agonia na França, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Yasser Arafat, 75 anos, morreu ontem em um hospital militar nos arredores de Paris, onde estava internado.

- O senhor Yasser Arafat morreu às 3h30 - anunciou o responsável pelos serviços médicos do exército francês, general Christian Estripeau, pondo fim a dias de especulação sobre se o líder palestino realmente estava vivo.

A causa da morte, no entanto, não foi esclarecida. O líder, que estava em coma há oito dias, sofreu uma hemorragia cerebral na terça-feira e, no dia seguinte, autoridades palestinas divulgaram que seus rins e fígado tinham parado de funcionar. Alguns chegaram a cogitar que tivesse sido envenenado.

- O sigilo médico faz parte da lei francesa e o respeitaremos. Não daremos nenhuma informação médica - se limitou a dizer o general.

Ao longo da manhã, centenas de pessoas, a maioria de origem árabe, se dirigiram ao hospital carregando bandeiras palestinas, cartazes e velas. Elas se concentraram ao lado direita da entrada, lugar que se transformou em um pequeno santuário desde que o presidente foi internado.

''Pouco importa minha vida, só conta o povo palestino e o futuro de seus filhos'', dizia um dos cartazes, reproduzindo uma frase de Arafat.

- O povo palestino já produziu muitos heróis e vamos encontrar alguém que será tão maravilhoso quanto ele - disse o tunisiano Wahid Tlili, um dos muitos que compareceram ao lugar. - A luta pela libertação palestina continua. Estamos confiantes.

Por volta do meio-dia, antes do corpo ser retirado do hospital, o presidente francês, Jacques Chirac, prestou sua ''última homenagem'' e ofereceu condolências à mulher de Arafat, Suha, e aos familiares. O presidente, que enviará o ministro de Relações Exteriores, Michel Barnier, para representá-lo no funeral, afirmou que continuará atuando incansavelmente pela paz e a segurança no Oriente Médio e disse esperar que a perda possa unir todos os palestinos.

Em seguida, os restos mortais foram levados de helicóptero a uma base aérea perto de Paris, mesmo lugar onde Arafat aterrissou em 29 de outubro. Foi lá que país europeu despediu-se com honras militares.

A viúva, Suha, ao lado do primeiro-ministro francês, Jean-Pierre Raffarin, e o chefe da diplomacia palestina, Nabil Shaath, não conseguiu conter as lágrimas na sóbria cerimônia antes do embarque do corpo para a capital egípcia, onde será realizado o funeral, hoje. Neste mesmo dia, como já tinha sido planejado na quarta-feira, os restos mortais de Arafat serão levados para a Muqata, sede da ANP em Ramala, para serem enterrados. Segundo os palestinos, a terra usada para cobri-lo virá de Jerusalém, já que Israel não permitiu que o enterro fosse lá, como desejava Arafat.

Sob um céu cinzento e ao som da Marcha Fúnebre de Chopin, oito soldados do exército francês carregaram o caixão, envolto na bandeira palestina. Como manda o Islã, o corpo foi lavado e embalado em um pano branco sem costuras, antes de ser colocado no ataúde.

Após um emocionado minuto de silêncio, o caixão permaneceu por alguns instantes em frente a Suha, 41 anos, que estava em lágrimas. Depois, foi levado até uma esteira transportadora, que o introduziu lentamente no avião.

O Airbus A-319 da presidência francesa demorou ainda cerca de meia hora para decolar, à espera que Suha Arafat, Nabil Shaath e outros membros da delegação palestina subissem na aeronave.

Pouco antes das 23h o corpo chegou no Cairo e foi mantido em um hospital da capital, onde permanecerá até a realização do funeral militar. Chefes de Estado e autoridades de todo o mundo são aguardadas. Do Brasil, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, representará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia, que será em uma mesquita nos arredores da cidade.

No mesmo dia, os restos mortais do líder vão de helicóptero para Ramala ser enterrado. Antes, a aeronave sobrevoará a Faixa de Gaza, ante protestos da população, que por questão de segurança foi impedida por Israel de despedir-se de Arafat. Seu corpo ficará exposto na sala onde costumava celebrar reuniões de Estado. Foi na Muqata, uma antiga prisão britânica, onde o presidente passou seus últimos 3 anos confinado. As autoridades palestinas decretaram 40 dias de luto.