Valor Econômico, v. 20, n. 4973, 02/04/2020. Opinião, p. A12
Saldo comercial recua ao ritmo da retração global
O saldo comercial brasileiro despencou no primeiro trimestre do ano (- 32%) e o pior ainda está por vir. As estatísticas começam a refletir a parada súbita de vários mercados desenvolvidos, atingidos pela propagação do coronavírus, e os plenos efeitos da retração global serão mais intensos agora, no segundo trimestre do ano.
O superávit da balança comercial chegou a US$ 6,13 bilhões, o menor desde 2015, mesmo contando com um impulso adicional de forte desvalorização do dólar. A redução dos resultados positivos ocorre de maneira funesta para a venda dos manufaturados, que apresentam pior resultado no trimestre - queda de 14,9%. Sua fatia vem encolhendo progressivamente e, no período, sequer alcança um terço da pauta de exportações, com 32,6%. A parcela dos bens básicos cresceu e domina 54,4% das vendas.
Apesar de a epidemia ter começado na China e de ela ter sido a primeira a desacelerar fortemente para combater o coronavírus já em fevereiro, isolando 60 milhões de pessoas e restringindo o comércio interno, as exportações brasileiras para lá aumentaram 4,3% e 10,7% para a Ásia, um dos poucos avanços observados nas vendas por países ou blocos comerciais. Mesmo com as turbulências, o Brasil é um grande vendedor de alimentos para o país e suas necessidades, portanto, não diminuem, pelo menos não muito, durante quarentenas ou epidemias.
As vendas externas caem em quase todo o mundo, apresentando quase estabilidade na Europa (1,3%, apesar dos -2% na União Europeia) e perda de fôlego relevante nos EUA (-20%), América do Sul (-13,5%), Mercosul (-12,6%), Oriente Médio (-27,8%) e Japão (-15,4%). A Argentina, tradicional cliente de manufaturados brasileiros, reduziu suas compras em 8,4%.
Com as economias que compõem 50% do PIB mundial em desarranjo por causa das defesas contra a covid-19, o comércio global está em derrocada, o que certamente levará junto as exportações brasileiras, que só são inequivocamente competitivas em bens agropecuários. Os principais mercados para o Brasil, com exceção da China, que já se recupera do baque do confinamento de Hubei, terão recessão, com pico no segundo trimestre.
A Argentina não tinha nenhuma perspectiva de crescimento antes da pandemia e agora, tem menos ainda. Analistas chegam a prever uma retração anualizada de 10% nesse período para a maior economia do mundo, os EUA. A Europa, antes a caminho da estagnação, marcha também para forte recessão. A Alemanha, o motor de sua economia, encolherá no melhor cenário (confinamento de 2 meses) 7,2%, segundo o economista Clemens Fuest. A Itália está parada e quebrada, França e Espanha estão sendo severamente castigadas pelo vírus, assim como ocorre com o Reino Unido. E o dinamismo asiático, que garantiu encomendas para o Brasil, deverá arrefecer com a queda dos pedidos da China e das principais economias desenvolvidas.
A demanda por commodities não alimentícias recua ao ritmo da desaceleração da produção industrial nos países avançados e na China. Particularmente problemático para o Brasil é o mergulho dos preços do petróleo, cujas cotações voltaram ao que eram há 20 anos, com o tipo Brent a US$ 22 o barril e o WTI a US$ 20. Uma inacreditável e predatória guerra de preços da Arábia Saudita com a Rússia - cujo alvo real é a indústria do shale nos EUA - retira as perspectivas de reação das cotações, se for mantida por mais tempo. Estima-se que há produção em excesso de 2,5 milhões de barris por dia agora, o que põe em xeque a capacidade de estocagem global.
A Petrobras, ainda com altas dívidas, embora cadentes, deverá cortar 200 mil barris por dia de produção, algo como 7% da extração total, ao mesmo tempo em que verá encurtar substancialmente suas receitas em dólar. Em 2019, a exportação de combustíveis e lubrificantes alcançou US$ 30 bilhões. Por outro lado, a arrecadação de royalties e participações, que alimentam municípios e Estados (20% do orçamento do Rio, por exemplo) sofrerá grande impacto, exatamente no ano em que os gastos vão disparar para enfrentar a covid-19 e quando esses recursos são mais importantes do que nunca.
Em outras circunstâncias, a redução dos superávits comerciais ou até resultados negativos trariam preocupação maior quanto ao aumento do déficit em conta corrente. Com a economia a caminho da recessão, reservas de US$ 358 bilhões e ingresso bastante relevante de investimento direto, o perigo pelo lado das contas externas, felizmente, não é o mais relevante.