Valor Econômico, v. 20, n. 4974, 03/04/2020. Política, p. A8

Planalto centraliza comunicação

Fabio Murakawa
Fabio Graner


O Palácio do Planalto resolveu centralizar a comunicação de todo o governo na crise do coronavírus. De forma inédita, até mesmo assessorias de imprensa de ministérios importantes, como Economia e Saúde, estão subordinadas à Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) na divulgação de medidas relacionadas à pandemia.

A iniciativa atende a uma orientação dos ministros Walter Souza Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria-Geral), de passar ao público a sensação de que há unicidade no discurso e nas ações de governo no combate à covid-19.

Segundo fontes do Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro também manifestou a vontade de participar dos anúncios das principais medidas de governo.

Com base nessas diretrizes, a Secom criou uma dinâmica de coletivas diárias com vários ministros de diferentes pastas. E ordenou nesta semana que todos os anúncios importantes fossem feitos no Palácio do Planalto. Essa centralização incluiu também o relatório diário de casos e mortes comandado pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cujo protagonismo na crise incomodava Bolsonaro.

As coletivas têm sido supervisionadas por Ramos e comandadas por Braga Netto. Mandetta tem somente respondido perguntas dos jornalistas presentes às coletivas interministeriais. Ramos orientou os repórteres a questionar também os demais ministros, embora o número de perguntas esteja limitado a cinco por coletiva. Na apresentação de dados, Mandetta responde apenas a perguntas técnicas enviadas por internet.

Apesar do discurso ambíguo do presidente Jair Bolsonaro, a nova estratégia estaria passando a sensação de que o governo trabalha em uma mesma direção, na avaliação de técnicos do Planalto.

Porém, ainda há desencontros que geram ruídos na comunicação do governo. Ontem, o Ministério da Economia havia previsto para a parte da manhã uma entrevista do secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, para falar sobre os impactos fiscais da crise. A reunião virtual, porém, foi desmarcada, sem novo horário.

Às 18h30, sem aviso prévio e após as duas coletivas diárias (a interministerial e de dados de saúde), Waldery e outros técnicos da Economia apareceram no Palácio e anunciaram a estrondosa estimativa de que o déficit público chegará a R$ 419 bilhões em 2020 e que o cronograma de restituições do IR seria mantido.

Nos dois dias anteriores, os técnicos da Economia e o próprio ministro Paulo Guedes falaram no Planaltos sem que sua equipe soubesse e informasse previamente à imprensa. Além disso, os representantes da pasta sequer responderam perguntas após o anúncio e recomendaram que as questões fossem remetidas ao ministério.

No início da crise, os anúncios da área econômica estavam sendo todos feitos no bloco P da Esplanada. De forma presencial e depois, com o isolamento, por vídeo conferência, mas com abertura para que os jornalistas fizessem perguntas, sem a limitação hoje imposta no Planalto.

Nos bastidores, funcionários do governo têm manifestado incômodo com a nova política. Enquanto as decisões de comunicação são tomadas no Palácio, a tarefa de lidar com as demandas de informação fica para os ministérios, sem que haja um fluxo normal de informação.