Título: Marcha a ré da desconfiança
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 30/11/2005, Economia & Negócios, p. A17
Se no início do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a apostar em um crescimento de 5% da economia este ano, a cada mês que passa, o que se constata é que fica mais e mais difícil atingir módicos 3% de expansão. Análises feitas por consultorias e bancos projetam que a economia no terceiro trimestre andará para trás, em estimativas que prevêem, em média, um recuo de 0,3% entre julho e setembro. Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta o número oficial, que mostra como a economia se comportou no período. O grande responsável pelo recuo da atividade no terceiro trimestre é a indústria, cuja produção cresceu apenas 1,5% no trimestre, frente ao anterior, segundo dados do IBGE. No mesmo período do ano passado, o setor acelerava em 10,4%.
- A indústria veio bem pior do que a gente esperava - opina o economista-chefe do Unibanco, Marcelo Salomon, que aposta em um recuo de 0,1% da atividade no período.
Para Sérgio Vale, economista da Consultoria MB Associados, outro indicador que deve apresentar resultado ruim é o investimento.
- A construção civil não está vindo em um ritmo muito bom e como representa 70% do investimento, deve impactar o indicador - aponta.
Para Vale, os investimentos registrarão este ano uma taxa de expansão de 3,3%, bem inferior à verificada no ano passado (10,9%).
Os juros são os principais responsáveis pelo impacto negativo na economia, segundo analistas. A taxa Selic esteve na média em 19,66% no período. Mas não foi só isso. A crise política, se não abalou profundamente os mercados, atingiu em cheio a confiança do consumidor, que adiou despesas, sobretudo as compras de eletrodomésticos e automóveis (bens duráveis), normalmente adquiridos a prazo.
- Com a confiança abalada, o comércio deixou de fazer encomendas à indústria, que já estavam com nível de estoques acima do normal no segundo trimestre - analisa o economista Bráulio Borges, da LCA Consultoria.
Para o economista, o trimestre será marcado pela estagnação (0,1%) frente aos três meses anteriores. E o responsável pela contenção da queda será o comércio, que conforme avalia, deve crescer 1,4% no período.
- O impacto do aumento do salário mínimo na economia só começou em julho. Se os bens duráveis não tiveram bom desempenho, os não-duráveis (alimentos) registraram um comportamento positivo - aponta.
Se o terceiro trimestre apontar, como avaliam economistas, a desaceleração estimada, para chegar à marca dos 3%, a economia terá que crescer de forma bastante robusta no último trimestre.
Para Sérgio Vale, o recuo de 0,2% no terceiro trimestre será compensado com uma alta de 1,7% no último período, acima da expansão verificada no segundo trimestre (1,4%), já considerada bastante elevada.
- É um crescimento muito forte, mas poderá seguir o exemplo do segundo trimestre - avalia.