Valor Econômico, v. 20, n. 4975, 04/04/2020. Empresas, p. B6

Desinfecção automática de ambientes tem alta procura

Bruno Villas Bôas


Os riscos de transmissão do novo coronavírus por meio de objetos e superfícies, como pisos, mesas e maçanetas, provocaram o aumento da procura por serviços de descontaminação de ambientes. Empresas brasileiras do setor relatam demanda de indústrias, hotéis e companhias aéreas, entre outras.

Uma das empresas do setor é a startup brasileira Aurratech, que chamou atenção em meados de março ao ser escolhida para desinfetar o Hotel H10 Costa Adeje Palace, em Tenerife, na Espanha. Mais de mil pessoas ficaram em quarentena no hotel após ser identificado o primeiro caso de coronavírus do país.

“Depois que todos saíram do hotel, ele seria fechado, mas precisava ser descontaminado. Ninguém queria fazer a descontaminação, mas nós conseguimos contato com a empresa de serviços do hotel e mostramos que sabíamos fazer biodescontaminação”, relata Caio Vinícius Agmont, sócio da Aurratech.

Para fazer a descontaminação, a empresa usou uma tecnologia própria chamada de “fog in place”, que basicamente transforma produtos químicos de limpeza em uma espécie de névoa seca. Ao condensar, o produto cobre 100% da superfície do local. O serviço é feito por máquinas, não é necessário pessoas executem a desinfecção.

Essa tecnologia foi inicialmente usada para atender uma fabricante de suco de laranja. Grandes tanques que demandavam 4 milhões de litros de água para ser desinfectados passaram a ser descontaminados com apenas 40 litros de água. “Passamos então a atender a grandes frigoríficos e fomos diversificando”, disse Agmon.

Segundo o empresário, a expectativa é aumentar de 60% a 70% o faturamento neste ano, em relação a US$ 1 milhão do ano passado. Novas máquinas estão sendo encomendadas. Recentemente, a empresa fechou parceria com o aplicativo de transporte 99 para descontaminar carros em São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

A maior empresa desse mercado é a Ambipar, sediada em Nova Odessa (SP), com 150 unidades em operação em 15 países, além de 3 mil funcionários. Em fevereiro, a empresa foi acionada pelo governo do Reino Unido para realizar a descontaminação de duas aeronaves usadas após resgatar britânicos na cidade chinesa de Wuhan, epicentro da covid-19 na China.

“Não é algo novo para a gente. Já trabalhamos com H1N1, com casos de ebola na África, com Sars”, disse Dennys Spencer, diretor operacional da Ambipar. “A diferença para uma empresa comum de limpeza é a forma de planejamento da limpeza, treinamento de pessoal, equipamentos utilizados.”

A Ambipar cobra por metro quadrado descontaminado. Segundo Spencer, houve aumento de 500% na demanda por metragem, mas ele não abre valores ou área total. Os clientes são prédios comerciais, lajes de escritórios, escolas particulares, academias de ginástica e companhias áreas em diversos países.

“Estamos antecipando que vai haver aumento de demanda ainda, já que as curvas de contágio parecem não estar declinantes. Temos mapeado geograficamente as demandas que surgem para contratar pessoal em locais mais estratégicos”, disse Spencer.

Em Porto Alegre, a empresa Skydrones está realizando testes de descontaminação de áreas públicas utilizando drones modelo Pelicano 2020, geralmente utilizado para pulverização na área da agricultura. Segundo Ulf Bogdawa, presidente da Skydrones, o procedimento já tem sido adotado em outros países, especialmente na China.

“Fornecedores nossos da China nos colocaram em contato com as autoridades de saúde de lá e conseguimos o protoloco para desinfecção com drones. Prefeituras têm mostrado interesse nisso para descontaminação de áreas públicas”, afirmou o presidente da empresa.

Ele lembrou que, no início de 2016, o mesmo modelo foi usado contra o mosquito Aedes aegypti e ganhou o apelido “Zika Killer”. “O modelo tem um tanque removível de 10 litros para aplicar o produto desinfetante e possui a capacidade de aplicar diariamente uma média de 25 hectares (250 mil metros quadrados) de forma automática”, disse.