Título: Mercosul e a Argentina
Autor: Ives Gandra Martins*
Fonte: Jornal do Brasil, 01/12/2005, Outras Opiniões, p. A11
A Federação das Indústrias de São Paulo e diversas entidades empresariais têm pressionado o governo federal a não ceder, uma vez mais, à Argentina, em suas inaceitáveis exigências de criar salvaguardas ainda maiores do que as excessivas que já instituíram, em relação ao Brasil, depois da crise cambial do início da década.
É de se lembrar que, no período em que o real equiparava-se ao dólar, estando sobrevalorizado, a Argentina só tinha elogios à postura de respeito do Brasil ao Mercosul, pois colocava aqui todos seus produtos, gerando saldo favorável enorme em sua balança comercial, em torno de 2 bilhões de dólares anuais, só nas relações com nosso país.
O abalo geral que afetou os mercados emergentes, depois da crise asiática e russa, terminou por gerar o calote argentino da dívida externa e interna e a perda de competitividade momentânea.
A partir daquele momento, o canonizado Tratado de Assunção, passou a ser violentado pelo país vizinho, conseguindo, sempre, infelizmente, de nossos governos, concessões e concordâncias que o Brasil não obteve, ao tempo em que o real, valorizado, tirava competitividade de seus produtos e provocava uma intensa desnacionalização do parque fabril e mercantil e certa estagnação da qual ainda não saímos, visto que o Brasil é, segundo relatório da CEPAL, o 3º país que menos progride na América Latina, ganhando apenas do Haiti e El Salvador, no ano de 2005.
Basta dizer que, para 2005, enquanto o Brasil reduz suas expectativas de crescimento, em face da má performance do 3º trimestre, devendo, no máximo, ficar esse crescimento em 3,2% do PIB, a Argentina projeta um crescimento de 8,5%!!! Acresce-se que nossa carga tributária está em 38% do PIB e a da Argentina pouco acima de 20%. Os juros reais, no Brasil, atingem a 14%, ao ano (descontada a inflação); na Argentina, são negativos (-0,5%). Nem por isto, deixa a Argentina de ter investimentos, em torno de 18% do PIB, para 2005, enquanto o Brasil poderá chegar, no máximo, a 20%, o que vale dizer não é verdade que a nossa economia vai bem e a deles vai mal.
Ocorre exatamente ao contrário. A Argentina se recupera de forma admirável (nos últimos anos, o PIB tem crescido entre 7% e 8% ao ano) e o Brasil patina, por força de uma máquina administrativa esclerosada, de fantásticos desperdícios na Administração Pública; de uma carga tributária indecente; de juros estratosféricos e, infelizmente, do desventrar do maior esquema de corrupção que a história política brasileira conheceu.
Não sem razão, os empresários brasileiros -aqueles que, ao lado dos trabalhadores, estão ainda salvando o país de um débâcle maior, à falta de um projeto de governo (o governo atual tinha apenas um projeto de poder) - são contrários às concessões que o Ministério dos Negócios Estrangeiros, sem consultá-los, pretende fazer aos argentinos, cujas autoridades, todavia, jamais negociam cláusulas comerciais sem ampla consulta ao empresariado local.
Têm toda a razão os empresários, geradores de emprego, quando não querem que o Itamaraty capitule, celebrando acordo redutor de exportação - principalmente de veículos brasileiros - sem sequer ter ouvido o empresariado nacional. Creio, todavia, que o problema não é apenas dos empresários, mas de toda a nação, razão pela qual todos os brasileiros - e não apenas alguns membros do Itamaraty - devem exigir que o Tratado do Mercosul seja respeitado e que não ceda, o governo, uma vez mais, às inconsistentes exigências argentinas, no caso nitidamente prejudiciais aos interesses brasileiros e à manutenção de um Tratado Regional, que tem beneficiado muito mais os nossos parceiros que o Brasil.
*Ives Gandra Martins escreve às quintas-feiras, a cada 15 dias.