Título: De olho em quem está alheio à crise
Autor: Sérgio Pardellas
Fonte: Jornal do Brasil, 04/12/2005, País, p. A3

Lula investe nas classes menos favorecidas, beneficiárias de programas sociais, para garantir reeleição em 2006

BRASÍLIA - Apesar da queda do Produto Interno Bruto (PIB), o Planalto aposta na força do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas classes D e E como a grande cartada eleitoral da campanha à reeleição em 2006. Levantamentos encomendados pelo governo revelam que a população de baixa renda, beneficiária de programas sociais como o Bolsa Família e Luz para Todos, votaria em peso em Lula se as eleições presidenciais fossem hoje. As pesquisas em poder do Planalto apontam que, mesmo com a crise política, Lula continua com mais de 50% de aprovação das classes D e E (renda mensal média de R$ 524 reais), enquanto Fernando Henrique do PSDB, partido que pretende encarnar o contraponto ao PT nas eleições do próximo ano, por exemplo, saiu do governo com apenas 9%.

Esse segmento representa entre 45% e 50% do eleitorado (cerca de 50 milhões de pessoas) e é capaz de definir a próxima eleição em favor de Lula, na visão de ministros do Planalto. É a faixa da população hoje está alheia à crise. Não sabe ou mal ouviu falar em mensalão, Marcos Valério e tem uma vaga suspeita do que seja ou pode ter representado a cassação de José Dirceu para Lula e o PT.

- É um povo de senso crítico comprometido. Que dorme cedo, não lê jornal, não vê o Jô Soares e às vezes assiste ao Jornal Nacional. Mas decide eleição - explica o cientista político, David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB).

A percepção do Planalto em relação ao poderio eleitoral de Lula na classes menos favorecidas da população foi reforçada durante a semana com a divulgação de um estudo da Fundação Getúlio Vargas, intitulado ''Miséria em Queda'', e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estudo da FGV revelou que o índice de miséria no Brasil caiu 8% de 2003 para 2004, deixando o país com a menor proporção de miseráveis desde 1992.

O número de pessoas que estão abaixo da linha da pobreza passou de 27,26% da população, em 2003, para 25,08% em 2004. Em 1992 esse percentual era de 35,87%. É considerado abaixo da linha da pobreza quem pertence a uma família com renda inferior a R$ 115 mensais.

- Esses resultados revertem uma máxima histórica no nosso país de que os ricos ficavam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres - comemorou o assessor especial da Presidência e ex-ministro do Fome Zero, José Graziano.

Outro dado alvissareiro do ponto de vista eleitoral que chegou ao conhecimento de assessores do governo nos últimos dias revelou um aumento do consumo popular. Cerca de 1,5 milhão de lares das classes D e E voltaram a incluir em suas cestas de compras produtos mais sofisticados como leite condensado, salgadinho e maionese. Na classe C houve o mesmo movimento, com 1,4 milhão de novos lares compradores de itens como leite fermentado, requeijão, cremes e loções.

Nos próximos meses, Lula pretende intensificar as viagens aos rincões do país para consolidar apoios e fidelizar de vez o eleitorado de baixa renda. A preocupação agora é amortizar o efeito da retração do PIB nas camadas mais baixas da população como consequência de uma possível queda da atividade industrial e agrícola.

- O Lula tem razão em investir nas classes D e E. Até porque o governo terá muita dificuldade entre os eleitores das classes A e B. Só não pode descuidar do PIB - afirma David Fleischer.

Não por acaso, Lula cobrou de Palocci durante a semana explicações a respeito da queda de 1,2% do PIB no terceiro trimestre na comparação com o segundo. A equipe econômica chegou a prometer um crescimento do PIB de 5% entre abril e setembro do ano que vem, ápice da campanha eleitoral. O otimismo, no entanto, cedeu lugar à cautela. A expectativa agora é que o índice caia pelo menos um ponto percentual.

- Todo o esforço será feito para que não sejam comprometidas as ações sociais do governo em 2006 - afirmou um auxiliar do presidente.

O investimento em programas de transferência de renda para as camadas mais pobres, capitaneados pelo Bolsa Família, chegou a R$ 5,7 bilhões no ano passado, um aumento de 148% em relação ao último ano do governo anterior. Esse ano pode chegar a R$ 6,5 bilhões. Em todo o país, o Luz para Todos já beneficiou cerca de 1,8 milhão de brasileiros - dentre esses 8 mil domicílios (40 mil pessoas) no Maranhão, duas mil famílias (10 mil pessoas) no Amazonas, dois mil e quinhentos domicílios do Rio Grande do Sul (14 mil pessoas) e cinco mil famílias (30 mil pessoas) na Bahia. Para 2006, a promessa é de incremento financeiro nesses dois carros-chefes da área social de Lula.