Valor Econômico, v. 20, n. 4977, 08/04/2020. Brasil, p. A2

Pacote de socorro não pode virar despesa fixa, alerta Delfim

Hugo Passarelli 


As medidas adotadas pelo governo para sustentar a economia durante a pandemia do novo coronavírus estão na direção correta, mas é preciso tomar cuidado para que, passada a crise, não se tornem gastos permanentes no Orçamento, defende o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto.

“O que seria mais cruel é se algumas despesas que estão sendo feitas por causa do coronavírus virarem despesas permanentes. Foi o erro que cometemos em 2008 e que terminou onde nós sabemos”, afirmou ontem em conferência do Credit Suisse.

Com décadas de vida pública, Delfim diz nunca ter vivido uma situação como a atual, de queda simultânea da demanda e da oferta global. “Sempre insisto que o problema não é só econômico ou sanitário. É obrigação moral do governo de minimizar o número de mortos”, afirmou.

A “conta” do orçamento de “guerra” proposto pelo governo vai e está sendo paga pela sociedade, disse. “Não existe nenhuma contradição entre Estado e mercado; não existe nenhuma economia sem um Estado constitucionalmente estabelecido e capaz de controlar o mercado.”

Apesar de estimar uma “recessão profunda neste ano”, com queda do Produto Interno Bruto (PIB) na ordem de 5% a 6%, o ex-ministro acredita que esta será uma crise passageira. “Vamos superar isso com essas medidas que estamos tomando no nível da saúde pública”, disse Delfim.

Segundo ele, o que se coloca agora é a saída a ser adotada após as medidas emergenciais. “O nosso problema hoje talvez seja é que estamos fazendo uma enorme transferência de renda, que é muito boa, mas vamos enfrentar um problema político de levar essas pessoas [que vão receber ajuda] a se conformar a voltar para a posição anterior [quando a crise acabar]”, afirma.

Segundo ele, é necessário produzir um projeto de país que engaje a sociedade junto com o governo após a normalização da epidemia. “Estamos num instante de quebra de processo histórico. Uma das lições que vamos ter de tirar dessa crise é que a administração pública precisa de uma reforma de cabo a rabo”, diz, em referência à lentidão para execução de políticas públicas e aos benefícios do funcionalismo.

O ex-ministro defende que, já no segundo semestre, o governo formate um modelo de investimento público para acelerar obras e projetos de rápida conclusão. “É preciso retomar alguns projetos que estão parados para ao menos recuperar o desemprego que foi causado nesse processo. É fundamental entender que teremos de trocar a roda com o automóvel rodando”, disse.

Delfim é crítico da postura do presidente Jair Bolsonaro durante a crise do novo coronavírus e pede que os conhecimentos científicos e a experiência mundial no tema sejam respeitados. “Nós temos dois governos e um trabalha contra o outro”, afirmou.