Valor Econômico, v. 20, n. 4977, 08/04/2020. Política, p. A7
Só coronavírus une Parlamento a Bolsonaro, diz Maia
Carolina Freitas
O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) afirmou ontem ver somente um ponto de convergência entre o Congresso e o governo Jair Bolsonaro: o enfrentamento à epidemia de covid-19 no Brasil.
“Só tem uma coisa que nos une hoje: o enfrentamento ao coronavírus”, disse o deputado federal durante live promovida pela corretora Necton Investimentos, de São Paulo. “Não tem mais nada que una o Parlamento ao governo.”
Mesmo em relação ao tema do combate à doença, Jair Bolsonaro vem divergindo não só dos parlamentares, mas de seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro se tornou o único líder político no mundo a negar a importância do distanciamento social para conter o avanço da doença.
Anteontem, o presidente paralisou os trabalhos de todos os ministérios por duas horas para uma reunião geral no Palácio do Planalto em que seria selado o destino do titular da Saúde. Mandetta foi mantido no cargo. O desfecho não surpreendeu Rodrigo Maia.
“No domingo eu conversei com pessoas do entorno do Mandetta e pedi: fale para o Mandetta que o presidente não vai demiti-lo. Fique tranquilo. Ele não vai demitir um ministro popular. Ele vai organizar a relação dele, vai construir um discurso com Mandetta e vai manter o Mandetta“, narrou o presidente da Câmara.
“O presidente trabalha muito por popularidade em rede social. É assim na relação dele com Moro [ministro da Justiça, Sergio Moro] e tem sido assim agora na relação dele com Mandetta.”
Maia acusou Bolsonaro de usar uma “estrutura paralela” ao governo para atacar quem o presidente considera ser adversário. Esse time, segundo Maia, seria usado contra Moro, Mandetta e contra ele próprio. “O presidente sempre usa essa estrutura paralela para tentar desqualificar aqueles que ele considera inimigos.”
O procedimento, na opinião de Maia, faz parte de uma estratégia de Bolsonaro. “O presidente é uma pessoa inteligente, diferente do que muitos acham.”
O deputado reiterou que a relação do Legislativo com a Presidência da República “não é boa” e atribuiu isso ao fato de Bolsonaro ter em seu entorno grupos que atacam diariamente e em grande volume o Congresso e suas lideranças por redes sociais.
Para o presidente da Câmara, o que motivou a crise política no Ministério da Saúde deflagrada pelo presidente na segunda-feira foi ciúmes. “A grande raiva do presidente é Mandetta entrando na live do Jorge e Mateus”, disse Maia. No fim de semana, o ministro participou remotamente da transmissão ao vivo do show - sem público presencial - feito pela dupla sertaneja.
O evento quebrou um recorde mundial do YouTube, com audiência de 3,4 milhões de pessoas. Mandetta usou o espaço para pedir que as pessoas fiquem em casa para evitar a explosão de casos de covid-19.
Não demorou a Bolsonaro falar a jornalistas que alguns ministros seus tinham virado “estrela” e que usaria “a caneta” para conter esses auxiliares, insinuando uma possível demissão.
Na live de ontem, Maia ironizou o fato de o gabinete “paralelo” de Bolsonaro ter deixado de criticar o PT para atacar um integrante do próprio governo, indicado e mantido no cargo por Bolsonaro. “O entorno do presidente esqueceu a polarização com o PT”, disse o deputado federal.
Apesar do distanciamento claro entre Congresso e Presidência e de todas as críticas, Maia fez um apelo a Jair Bolsonaro por “união”. Para o presidente da Câmara, o governo federal deveria usar o momento de crise para construir uma relação saudável com o Parlamento e, assim, garantir no segundo semestre e em 2021 votações de projetos que sejam do interesse das duas instituições para reerguer a economia do país no pós-coronavírus.
“Temos que focar no principal: como a gente passa essa primeira onda? Como garante estrutura para salvar vidas, capital de giro para empresas e renda para os vulneráveis?”, disse Maia. “Garantindo isso, a partir da segunda onda, vamos fazer outro debate. Essa oportunidade pode construir pontes para que retomemos o diálogo e as agendas do segundo semestre.”