O Globo, n. 32530, 30/08/2022. Política, p. 6

Soraya ‘vira’ Juma Mar­ruá nas redes e rebate bol­so­na­ris­tas

Natália Portinari


A senadora Soraya Thronicke (MS), candidata à Presidência de última hora do União Brasil, estreou no primeiro debate presidencial, da Band, como praticamente desconhecida do público — mas causou impacto nas redes sociais ao declarar que, em seu estado, o Matro Grosso do Sul, tem mulher "que vira onça" e ela é uma dessas. Foi apelidada nas redes sociais de Juma Marruá, personagem da novela "Pantanal" que se transforma no animal.

Soraya seria a vice de Luciano Bivar (PE), presidente da sigla, mas se tornou a titular após o pernambucano desistir para apoiar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na esperança de concorrer à presidência da Câmara no ano que vem com o endosso do petista.

Em 2018, Soraya se elegeu senadora com apoio de Jair Bolsonaro. Defendia pautas conservadoras como o porte de armas, a criminalização do aborto. Ao G1, na época, defendeu o "endurecimento da legislação penal". Antes disso, foi advogada e empresária. É dona de uma rede de motéis em seu estado.

Sua relação com o Palácio do Planalto teve um percalço já em 2019, quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do presidente, a pressionou a retirar sua assinatura a favor da CPI dos Tribunais Superiores. Ela encampava a pauta de combate à corrupção e defesa da Lava-Jato, a exemplo da maioria da bancada do PSL, ao qual pertencia.

Lavajatistas, naquele momento, clamavam pela CPI nas redes sociais. Soraya manteve o perfil discreto, mas seguiu fiel à base conservadora que a elegeu.

— Ela é a mesma Soraya — diz Luciano Bivar ao GLOBO. — Quem se afastou do bolsonarismo que nós idealizávamos foi Bolsonaro. É como (Karl) Marx. Se ele fosse vivo, ouso dizer que ele não seria marxista.

Neste domingo, Soraya foi chamada de "traidora" por Flávio Bolsonaro. Durante o debate, o filho do presidente postou uma foto da senadora ao lado de Bolsonaro e acrescentou que "a história já mostrou como o eleitor trata os traidores". Ela, por sua vez, respondeu lembrando da discussão que tiveram. "Fui sim, eleita com Bolsonaro, acreditando nas bandeiras do combate à corrupção. Logo após, me decepcionei por completo, começando por você, que me ligou aos berros exigindo a retirada da minha assinatura na CPI da Lava Toga. Jamais me curvarei a vocês, TRAIDORES DA PÁTRIA!."

No debate, a candidata criticou diversas vezes o atual governo e reagiu ao ataque de Bolsonaro à jornalista Vera Magalhães, colunista do GLOBO.

— Lá no meu estado tem mulher que vira onça. Eu sou uma delas. Eu não aceito esse tipo de comportamento e xingamento.

Desvencilhar seu nome de Bolsonaro é uma das maiores preocupações da campanha de Soraya Thronicke neste momento. Nesta segunda-feira, seu perfil no Twitter passou o dia respondendo usuários que postaram sua foto ao lado do presidente, explicando que houve uma ruptura devido a "diversos escândalos" e à postura do chefe do Executivo durante a pandemia do coronavírus.

Apesar da troca de farpas pública em período eleitoral, a relação da senadora com o governo permaneceu amigável após a discussão com Flávio. Ela é vice-líder do governo no Congresso Nacional desde maio de 2021, quando já se dizia independente. Segundo sua assessoria, ela já pediu para se der destituída do cargo.