Título: Conversa de sofá
Autor: Villas-Bôas Corrêa e sofá
Fonte: Jornal do Brasil, 07/12/2005, Outras Opiniões, p. A11

Interpretar o fundo da alma de viventes, seguir o risco de intenções, acompanhar o ziquezague hesitante, debulhar as emoções que explodem nos impulsos de temperamentos afirmativos ou baixam o tom na acomodação dos tímidos é desafio para psicanalistas, mestres das conversas na penumbra, com o cliente espichado no sofá para o perfeito relaxamento dos nervos tensos. A pretensão de decifrar o que rola pela cabeça do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na longa crise de contradições da fase cinzenta do governo, atazanado pelo escândalo da corrupção que escorre no esgoto das denúncias investigadas pelas CPIs dos Correios e dos Bingos - depois que a do mensalão entrou em recesso - pode estar, e com certeza está além da competência de um simples repórter político, com toda a bagagem de quase seis décadas de atividade no ramo e a experiência inútil de 82 anos de vida.

Ossos do ofício: o tema impõe-se, com prioridade absoluta. Afinal, como se explica o embaralhado de contradições, parecendo novelo de lã em mãos travessas de criança, das últimas semanas, a série de pronunciamentos desastrados, os rompantes dos pitos no ministro Antonio Palocci, as cobranças irritadas a ministros flagrados na boa vida, as reiteradas afirmações públicas de autoridade?

O tombo de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, depois da escalada de oito índices de ascensão. tirou o presidente do sério, interpretada como uma ofensa pessoal. Ele pode ter as suas razões na queixa de não foi prevenido com a antecedência para absorver o choque. As explicações do ministro da Fazenda, em encontro áspero, não acalmaram os nervos presidenciais, que o convocou para novo encontro esta semana, juntamente com o presidente do Banco Central. Henrique Meirelles. Pauta encorpada com o exame de corretivos, como a liberação de verbas para obras e as estratégicas emendas de parlamentares, o melhor dos remédios para a cura milagrosa de rebeldias e a garantia de votos para a aprovação de projetos do interesse eleitoral do candidato à reeleição.

O governo despertou da letargia para a pressa desatinada: trombeteou a liberação, até o próximo dia 31, de R$ 1,1 bilhão para regar as emendas parlamentares. O que sobrar será aplicado em programas no canteiro de votos das áreas de infra-estrutura social. E, com as gorduras do pulo da receita primária de cerca de R$ 3,5 bilhões, os estados e municípios serão amaciados com a transferência de R$ 1,5 bilhão.

Este festival de gastança patrocinado por governo desestruturado, em ano eleitoral, é como semear escândalo em horta de futuras CPIs.

Depois de quase três anos de somiticaria da fase de austeridade, com a torneira fechada para investimentos e obras, com os resultados calamitosos da malha rodoviária em pandarecos; da saúde expondo a sua falência nas filas da miséria do INSS, das greves, das enfermarias imundas, em que falta tudo, de médicos e enfermeiras a remédios; da segurança pública, em todos os níveis, derrotada pelo crime que domina presídios, penitenciárias, delegacias superlotadas, ocupa as favelas e ruas e disputa espaço na guerrilha de facções, donas da praça - o presidente assume o exercício do cargo, fala alto e tenta dar um jeito na bagunça.

Afinal, a reeleição pisca os sinais de advertência mas não está perdida. As pesquisas baralham índices de queda com o alívio de percentuais favoráveis. No que está andando na pasmaceira do monstrengo ministerial, como os programas do Bolsa Família, do Fome Zero, do Luz Para Todos, os resultados aparecem, inclusive nos dividendos políticos, que é o que importa. Lula ampara-se na aprovação de mais de 50% das classes D e E, que representam entre 45% a 50% do eleitorado.

Pesquisas valem o que significam. Os dados a mais de meio ano do início da campanha, alimentam especulações sobre a escolha de candidatos. A definição do favorito ou dos favoritos terá que esperar a massificação da campanha por artes e truques do programa de propaganda eleitoral.

O surto de autoridade do presidente tem fôlego curto, não faz o seu gênero. Como ele próprio anuncia: no último ano do primeiro mandato, de olho na eleição, pretende viajar mais do que nunca, embrenhando-se nos grotões, percorrendo vilas, distritos, cidades do interior para consolidar os votos dos beneficiados pelos programas sociais.

Ficamos a dever à competência do fotógrafo Gustavo Miranda o flagrante que ilumina, como holofote no breu da noite, os fundos do Palácio do Planalto e os seus segredos. Na reunião do Conselho de Segurança Alimentar, quando Lula tomou posição diante do microfone para o discurso que mistura texto lido e o improviso, ao segurar as folhas abertas, no seu reverso, quatro linhas de anotações do próprio punho chamaram a atenção profissional que caprichou na foto histórica, que mostra, em duas linhas, com absoluta nitidez, as anotações no estilo presidencial: Conselho -(1) Tem demandas do Conselho que precisa ser discutido. 2) Notícias boas e notícias ruins. Boas: Pnad-PIB/Zé Dirceu.

O ensino anda à matroca. Mas, um aluno do curso primário não cometeria dois erros elementares em duas linhas. Tem demandas, presidente, ou há demandas? E que tal um plural e um retoque nos verbos: Há demandas do Conselho que precisam ser discutidas.

Ah, dá para entender porque nunca se vê o presidente escrevendo, estudando processos, comentando os livros que lê!