Valor Econômico, v. 20, n. 4978, 09/04/2020. Política, p. A8

Presidente vai a campo para reconstruir pontes

Andrea Jubé


Em meio à deterioração de sua popularidade na crise do coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro assumiu as rédeas da articulação política e entrou em campo pessoalmente para tentar reconstruir pontes com o Congresso.

Nos últimos dias, deflagrou uma rodada de reuniões com presidentes de partidos do Centro para pedir ajuda ao governo para sair da turbulência, em especial num momento de desgaste da relação com os chefes do Legislativo por causa da ameaça de demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Bolsonaro conduziu as conversas individualmente com os dirigentes, sem a participação de assessores ou ministros. Ele reuniu-se ontem com o líder do PL na Câmara, deputado Wellington Roberto (PB), e o senador Jorginho Mello (PL-SC).

No fim da tarde, passou mais de duas horas com o primeiro vice- presidente da Câmara e presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (SP), com quem discutiu trechos do pronunciamento que gravaria logo mais.

Na segunda-feira, recebeu o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI). Antes de eclodir a crise sanitária, havia se encontrado com o presidente do PSD, Gilberto Kassab.

Segundo uma liderança de um desses partidos, Bolsonaro assumiu a articulação política porque quer somar forças para governar e ajudar o país a contornar a crise. Esta liderança afirma que é preciso dar um “voto de confiança” ao presidente.

Outro líder a par das conversas de ontem acrescentou que Bolsonaro também busca uma reaproximação com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), com a mediação desses dirigentes partidários. A relação azedou por causa da ameaça de Bolsonaro de afastar Mandetta no auge da pandemia. O ministro é filiado ao DEM e tem o apoio de Maia e Alcolumbre.

Na segunda-feira, Alcolumbre disparou telefonemas aos ministros palacianos alertando que se Mandetta fosse demitido, o gesto prejudicaria a relação com o Congresso. Na mesma linha, Maia tem dados declarações incisivas contra Bolsonaro. Afirmou a investidores que as relações do Legislativo com o Planalto não estão boas e declarou que era melhor Bolsonaro “respeitar a ciência do que fritar” o ministro.

A harmonia das relações para atravessarem a crise depende, entretanto, do cessar-fogo dos grupos bolsonaristas contra os líderes do Congresso nas redes sociais, mas não foi feito nenhum compromisso da parte de Bolsonaro nesse sentido.

As redes sociais são a arena sensível de Bolsonaro e a prorrogação da CPMI das fake news, que investiga proliferação de notícias falsas - inclusive por artilharia bolsonarista - contrariou o presidente.

As conversas com PP e PL ocorrem menos de uma semana depois que os senadores Ciro Nogueira e Jorginho Mello retiraram as assinaturas do pedido de continuidade da CPMI. Um dos alvos é o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Na semana passada, o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, e os senadores Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Eduardo Gomes (MDB-TO), líder do governo, dispararam telefonemas pedindo aos senadores a retirada dos apoiamentos à continuação dos trabalhos. Ciro e Mello são dois dos dez que acataram os pleitos, mas a adesão foi insuficiente. Além disso, os deputados do PP e do PL não imitaram os senadores - endossaram a continuidade da CPMI.

Em outra frente, o Republicanos filiou há três semanas o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro. Flávio estava sem partido depois de se desfiliar do PSL e enquanto aguarda a conclusão do Aliança pelo Brasil. Carlos estava desconfortável no PSC, sigla do governador Wilson Witzel, que se tornou desafeto de Bolsonaro.