Título: Valério escapa da prisão outra vez
Autor: Luiz Orlando Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 08/12/2005, País, p. A3
O relator da CPI dos Correios, Osmar Serraglio (PMDB-PR), pediu à Polícia Federal a prisão de Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de ser o operador do Mensalão. Ontem, Serraglio e o deputado Eduardo Paes, relator adjunto da CPI, reuniram-se com o delegado da Polícia Federal Luiz Flávio Zampronha, responsável pelo inquérito. Na avaliação dos parlamentares, a prisão é necessária porque Marcos Valério estaria atrapalhando as investigações. ¿ Marcos Valério continua orquestrando ¿ afirmou Serraglio.
Segundo o deputado Eduardo Paes, o delegado Zampronha disse já ter elementos suficientes para pedir, pela segunda vez, a prisão de Marcos Valério.
O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, entretanto, discorda. Ele disse que não vê ¿motivos¿, nem tem ¿elementos¿, para pedir ao Supremo Tribunal Federal a prisão preventiva de Valério.
O delegado Luiz Flávio Zampronha disse a Serraglio que vai intimar o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares para explicar o pagamento feito à Coteminas. O dinheiro serviria para pagar camisetas confeccionadas pela empresa do vice-presidente para a campanha do presidente Lula.
No intervalo da sessão plenária do STF, o chefe do Ministério Público criticou indiretamente a solicitação de prisão preventiva feita pelo relator da CPI à Polícia Federal:
¿ A CPI tem o projeto dela, e eu não vou atropelar o meu procedimento para atendê-la. Isso dá notícia de jornal, eu sei ¿ disse o chefe do MP.
Ele prosseguiu:
¿ Essa questão de tem de prender, tem de prender, acaba por criar clima ruim para a condução do inquérito. A sugestão da CPI nesse caso não importa, é irrelevante ¿ sublinhou o procurador Antonio Fernando de Souza.
Na reunião realizada ontem pela manhã entre Zampronha e os parlamentares também foi discutido o depósito de R$ 1 milhão feito pelo PT à empresa Coteminas, do vice-presidente José Alencar (PL-MG), em 17 de maio, como pagamento de parte de uma dívida das campanhas municipais de 2004.
O dinheiro saiu das contas de Marcos Valério, segundo o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Os integrantes da comissão afirmaram ontem ser mentirosa a versão dada pelo ex-petista. Serraglio apresentou documento, semelhante ao que tratava de supostos desvios de recursos da Visanet para o valerioduto, mostrando que o R$ 1 milhão pago pelo PT à empresa tinha origem distinta dos repasses investigados pela comissão.
Segundo Serraglio e Paes, a PF vai convocar Delúbio e a funcionária Marice Corrêa Lima, coordenadora administrativa do partido, ainda esta semana. Marice foi a portadora do dinheiro, pago em espécie à Coteminas.
Antonio Fernando de Souza não deu importância ao caso da Coteminas:
¿ Todo dia chegam informações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). E dentro desse contexto, é apenas mais um fato. Em princípio, é só o repasse de dinheiro de um partido para uma empresa ¿ comentou.
O chefe do Ministério Público informou ter recebido do Coaf informações relativas à Coteminas, e as enviou à Procuradoria da República em Belo Horizonte.
A CPI dos Correios aprovou ainda ontem requerimentos apresentados pelo deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) que convocam 61 pessoas envolvidas em perdas financeiras verificadas nas investigações que a comissão fez na contabilidade dos fundos de pensão.
Entre os convocados estão diretores financeiros dos fundos, sócios de corretoras que operaram recursos das instituições de previdência e alguns beneficiários já identificados.
Terça-feira, ACM Neto apresentara relatório parcial sobre as aplicações financeiras dos fundos. O documento aponta uma perda de aproximadamente R$ 730 milhões para as instituições. O documento lista 14 fundos que tiveram perdas e dez corretoras envolvidas nas operações.
Alguns dos fundos e corretoras citados no relatório parcial da CPI dos Correios alegaram que desconheciam os critérios utilizados pela auditoria para calcular as perdas ou mesmo afirmam que não registraram prejuízos no período citado pelo parecer do deputado.