Valor Econômico, v. 20, n. 4979, 11/04/2020. Agronegócios, p. B10
Saída de capital impõe risco a corte de juros
Lucas Hirata
Victor Rezende
A debandada de recursos externos dos mercados emergentes, devido a temores em torno do novo coronavírus, tem elevado as incertezas sobre os rumos da política monetária no Brasil. Mesmo com a firme queda nas expectativas de inflação, um grupo de analistas alerta que o momento não é de corte agressivo da taxa Selic, uma vez que esse tipo de medida poderia até intensificar a saída de capital daqui.
De acordo com dados enviados ao Valor pelo Instituto de Finanças Internacionais (IIF), que reúne os maiores bancos do mundo, os mercados emergentes viram uma fuga de capital externo na ordem de US$ 98 bilhões desde a eclosão da crise, em 21 de janeiro. A intensidade do movimento é maior do que as perdas em 2008 (crise financeira), 2013 (“taper tantrum”) e 2015 (turbulência na China).
Somente o Brasil sofreu uma debandada de US$ 13,2 bilhões em capital estrangeiro até 3 de abril. Para efeitos comparativos, no período entre 21 de janeiro e 27 de março, houve saída de US$ 12,4 bilhões do Brasil em capital estrangeiro, enquanto o México enfrentou uma retirada bem mais contida, de US$ 6,4 bilhões.
Parte dos analistas afirma que o momento é de crise de liquidez nos mercados, sob forte aversão a risco. Assim, em uma situação de riscos agudos às perspectivas, os instrumentos do Banco Central precisam ser diferentes e ir além da taxa básica de juros.
É o que defende o economista-chefe da JGP, Fernando Rocha, para quem reduções adicionais nos juros seriam um “tiro no pé”. “O BC deveria deixar de lado a preocupação exclusiva com as metas de inflação. Não é o mais importante no momento. Estamos diante de ameaças maiores.”
Para Rocha, o corte de 0,50 ponto percentual na Selic em março “foi um erro”. Ele avalia que, na crise atual, a fuga de capitais dos mercados emergentes para mercados desenvolvidos tem sido “imensa”. “Estamos com um grande aspirador de capital por aqui. Tudo o que estava alocado em ativos de risco está sendo dragado. O Brasil é um país exportador de capital, enquanto os Estados Unidos atraem. Não podemos levar o juro a zero como eles fizeram”, afirma.
O economista-chefe da Trafalgar, Guilherme Loureiro, afirma que, no ambiente de isolamento social, “os instrumentos contracíclicos tradicionais de política monetária tendem a ser muito pouco efetivos”. Para ele, “pelo fato de estar todo mundo trancado em casa, isso não vai fazer as pessoas gastarem mais ou investirem mais”.
Loureiro ainda espera redução de 0,5 ponto da Selic em maio, para 3,25%, mas aponta que os próximos passos devem ser tomados com cuidado e os esforços deveriam se concentrar em fluxo de crédito para evitar quebradeira, inadimplência e aperto de liquidez. “Cortar juros e usar instrumentos tradicionais de política monetária não funcionam tanto para ter um efeito contracíclico e trazer de volta a inflação para a meta dado o tamanho do choque que estamos vendo.”
A leitura está longe de ser um consenso no mercado, que continua a advogar por taxas cada vez menores, mas ecoa declarações mais recentes do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que tem dado prioridade a ações que vão além da Selic para dar liquidez ao mercado.
Em webinar promovido pelo Credit Suisse na semana passada, o dirigente ressaltou que confia na potência da política monetária, mas indicou que as medidas de liquidez têm sido mais importantes no momento. Para ilustrar o contexto atual, Campos enfatizou que a saída de recursos de mercados emergentes tem sido expressiva.
Outro ponto lembrado por alguns agentes é o da situação fiscal do Brasil, diante de medidas adotadas recentemente que devem aumentar o endividamento no país. Para a Kapitalo, “o risco de uma crise fiscal não é desprezível olhando para o ano de 2021”. Assim, embora veja uma queda de mais de 5% do PIB neste ano e inflação de 1,4%, a gestora diz que o cenário “sugere alguma cautela na condução da política monetária, que deverá ser afrouxada gradativamente”.
Por outro lado, boa parte dos analistas vê espaço para corte de juros e defende a Selic em níveis ainda menores, dada a queda livre das expectativas de inflação. Alguns comentam, inclusive, que o juro mais baixo ajudaria na retomada da economia quando o choque do coronavírus se dissipar.
“O que a gente tem visto é uma postura mais conservadora no uso dos juros. As indicações apontam que há mais espaço, mas não parece haver disposição de cortar os juros, o que seria adequado para este cenário que se apresenta de queda da atividade”, disse Aurélio Bicalho, economista-chefe da Vinland Capital. Em “live” promovida pelo BTG Pactual, ele afirmou que a Vinland tem como cenário base o juro a 3% em junho e até o fim do ano, mas nota que a Selic poderia testar níveis mais baixos.
Bicalho enfatizou que o regime continua a ser o de metas de inflação e disse que, nas projeções da Vinland, o IPCA deve ficar em 2% neste ano e em 2,8% em 2021, abaixo das metas estabelecidas de 4% e de 3,75%, respectivamente.
Para o diretor de investimentos da Persevera Asset Management, Guilherme Abbud, o tom conservador do BC ao se referir a ações futuras de política monetária é “muitíssimo arriscado” neste momento, em que uma depressão econômica bate à porta do Brasil. Em sua avaliação, o cenário econômico inclui um tombo de 5% a 10% no PIB neste ano, com inflação de 1% e com chances de ser ainda mais baixa.
Abbud defende que a Selic seja levada a níveis bem menores do que os atuais 3,75% com rapidez. “A inflação em 1% não é mais algo a se comemorar. É um problema para o qual o Brasil não está treinado.
Quedas de inflação a partir de agora têm de ser combatidas porque passam a ser sintoma de uma doença grave, que é a depressão econômica”, afirma.