Título: Ataques e culpas
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 10/12/2005, Opiniao, p. A10
Desde o desembarque ao poder, em janeiro de 2003, o Partido dos Trabalhadores revelou-se especialmente competente na arte de atirar contra a própria gestão. O ''fogo amigo'' tornou-se uma das marcas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, com um dos seus principais artífices distante do Palácio do Planalto, livre dos compromissos oficiais e certamente magoado pela cassação do mandato de deputado, o risco de ataque aumentou, com possibilidades efetivas de estragos eleitorais até o fim do próximo ano. Sublinhe-se, por exemplo, o constrangimento provocado no Palácio do Planalto pelas declarações do ex-deputado José Dirceu. Em entrevista à revista Fórum, o ex-todo-poderoso do presidente Lula afirmou que, com a crise política, ''não sobrou nada no governo''. Dirceu citou os nomes do ex-ministro Luiz Gushiken, do chefe de gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, e do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, além dele próprio, para dizer que todos foram atingidos por denúncias de corrupção e concluiu que nada restou dos escombros deixados. Apesar do exagero retórico, não deixa de ser verdade. O constrangimento no partido e no governo foi inevitável. Tanto que a direção nacional do partido divulgou, na quinta-feira, uma nota esclarecendo as declarações de Dirceu. A explicação seguiu o padrão petista habitual: a culpa foi da imprensa. ''As frases foram tiradas do contexto por alguns órgãos de imprensa e perderam o sentido original, que não era de crítica'', pontuou a nota. Em resumo, no PT é assim: diante do bombardeio interno, credite-se a guerra aos observadores externos.