Título: Doutrina fora do páreo
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 16/11/2004, Internacional, p. A-7

A explicação para a saída do secretário de Estado Colin Powell não se justifica apenas pelo fato de que o general era tido como moderado em meio a um governo de conservadores do porte de Donald Rumsfeld e Dick Cheney. O pedido de demissão também se traduz pela incapacidade da ''doutrina Powell'' de se adaptar ao contexto pós-11 de Setembro e pela percepção corrente na Casa Branca de que o departamento de Estado não cumpriu, durante os três anos de guerra contra o terrorismo, o papel que se espera da pasta.

Powell nunca foi um moderado. Passou a ser visto como tal depois que se tornou membro de um governo repleto de conservadores da linha-dura, como o vice-presidente e o secretário de Defesa. Foi chamado por Bush, antes do 11 de Setembro, para seguir em frente com a doutrina que estabeleceu quando foi Chefe do Estado Maior no governo George Bush (pai) e comandou, como tal, a primeira intervenção no Iraque.

A ''doutrina Powell'' diz que os Estados Unidos só devem intervir militarmente na defesa de ''interesses nacionais vitais'' e, quando o fizer, deve usar de uma força esmagadora, com uma clara estratégia de retirada e nunca se envolver em práticas de ''construção de nações''.

O problema é que a doutrina foi concebida antes do 11 de Setembro. Depois dos ataques, Rumsfeld, no comando do Pentágono, e Cheney, na vice-Presidência, tomaram à frente na Casa Branca com novas idéias sobre as intervenções militares americanas, algo que envolveria uma infantaria mais leve, menos soldados, muita tecnologia e, certamente, uma ação direta sobre a ''contrução de nações'', ainda mais se o alvo estiver em cima da segunda maior reserva de petróleo do mundo.

A diferença de pensamento ficou nítida quando as duas ações após os atentados, no Iraque e no Afeganistão, chegaram na fase de reconstrução. Com Powell no comando, a prática não tinha a concordância do departamento de Estado, que acabou ficando de fora do processo. No entanto, o Pentágono não tem e nunca teve o know-how para ajudar no desenvolvimento de instituições ou na organização de eleições. A fase da construção de nações'' ficou órfã no governo Bush e é uma atribuição típica do departamento de Estado.

Outra função do departamento é a de construir coalizões e legitimidade para as políticas desejadas pela Casa Branca ou influenciar o presidente a ponto de formular ações condizentes com as alianças e com o direito internacional. Estas não são preocupações do Pentágono, muito menos com Rumsfeld no poder, mas da secretaria que Powell comandou.

No caso do Iraque, o argumento utilizado para a construção das alianças foi o das supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein, uma justificativa sem base concebida pelos militares em volta de Rumsfeld, que não têm a menor preocupação de fazer alianças. Nas mãos de Powell, o departamento de Estado também ficou de fora da construção da legitimidade internacional das ações dos EUA na guerra contra o terrorismo e não foi bem-sucedido na contenção do crescente antiamericanismo no mundo. O general sai com o reconhecimento do mundo, mas derrotado.