O Globo, n. 32488, 19/07/2022. Brasil, p. 12

Perda disseminada

Lucas Altino
Rafael Garcia


Dois relatórios divulgados ontem mostraram como o desmatamento, embora seja o principal problema na Amazônia, se espalha por todo o país. O Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) apontou que a Amazônia viveu o seu pior primeiro semestre dos últimos 15 anos em 2022. E de 2019 a 2021, o país perdeu o equivalente a quase todo o Estado do Rio, segundo o Relatório Anual de Desmatamento do Brasil do MapBiomas, programa de monitoramento do uso da terra que reúne várias instituições e especialistas, como universidades, ONGs e empresas de tecnologia.

Segundo a pesquisa do MapBiomas, o país manteve o padrão recente de alta no desmatamento. Houve perdas de 16.557 km² em todos os biomas em 2021, 20% a mais do que no ano anterior. Desde o início do governo Jair Bolsonaro até o ano passado, já foi desmatada uma área de 42 mil km² —o estado do Rio tem 43 mil km². A velocidade média de desmatamentos, que era de 0,16 hectare por dia para cada evento detectado em 2020, acelerou para 0,18.

18 árvores por segundo

No ano passado, houve uma média de 191 novos eventos e 45,36 km² desmatados por dia, ou 1,89 km² por hora. Somente na Amazônia, foram 11,16 km² desmatados por hora, ou 1,9 hectare por minuto, o que equivale a cerca de 18 árvores por segundo. O relatório ainda encontrou indícios de irregularidades em mais de 98% dos casos.

Quase 10 mil km² de vegetação nativa da Amazônia foram destruídos em 2021, 15% a mais do que o registrado em 2020, quando já houve crescimento de 10% em relação a 2019.

O ritmo continuou no primeiro semestre deste ano, segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) do Imazon. Foram derrubados 4.789 km² de mata, quase 20% a mais do que no mesmo período do ano passado, que já era o pior da série histórica do SAD, iniciada em 2008.

O pior mês do primeiro semestre foi junho, mais próximo do período de seca, quando o trabalho de remoção de árvores fica mais fácil. A floresta perdeu 1.429 km² no mês passado, área semelhante à do município de São Paulo.

Pior no Pará

Tanto na pesquisa do Imazon quanto do MapBiomas, o Pará aparece como o estado com maior índice de desmatamento. No SAR, o estado sofreu uma redução de 497 km² de florestas de janeiro a junho deste ano. No levantamento do MapBiomas, de cada quatro hectares desmatados no ano passado, um foi no Pará, que perdeu 4.024 km².

Além da agropecuária, o Pará sofre com a ação do garimpo, em especial a cidade de Tarituba, segundo o MapBiomas. O relatório do Imazon destaca com preocupação a pressão exercida sobre a área de proteção ambiental Triunfo do Xingu e a terra indígena Apyterewa no estado. “No caso da Apyterewa, que foi alvo de invasões de grileiros em maio, o território concentrou 52% de todo o desmatamento ocorrido nas terras indígenas da Amazônia em junho. Foram devastados 14 km² no mês”, afirma a ONG.

O Cerrado e a Caatinga foram os outros biomas mais desmatados. No Pantanal, houve um aumento de 50,5% de alertas de destruição da floresta e de 15,7% na área desmatada, em comparação a 2020. O relatório do MapBiomas destaca que os alertas no Cerrado, Caatinga, Pampa e Pantanal são subestimados, pois nestes locais predominam formações não florestais, cujo mapeamento é deficiente em relação ao que existe de detecção de vegetação nativa florestal, típicas da Amazônia e Mata Atlântica.

Agopecuária

A agropecuária é responsável por quase todo o desmatamento do país, aponta o relatório do MapBiomas. Nos últimos três anos, a atividade prevaleceu como a causa em 97% dos eventos detectados. Além dela, o garimpo, a mineração e a expansão urbana são fatores relevantes.

— Precisamos retomar a demarcação de terras indígenas, de comunidades quilombolas, de reservas extrativistas e unidades de conservação, e sermos implacáveis na retirada de invasores dessas áreas protegidas — diz Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas.

O MapBiomas se baseou em todos sistemas de alertas de desmatamentos que existem no país, como os do Inpe, da SOS Mata Atlântica e da Imazon. O levantamento resultou em 69.796 alertas, que foram refinados e cruzados com outros dados públicos, como os de Cadastro Ambiental Rural (CAR). O cruzamento mostrou que 77% da área desmatada estavam dento de imóvel rural cadastrado no CAR. Assim, é possível encontrar responsáveis pela devastação em pelo menos três quartos dos casos. Azevedo ressalva que os imóveis rurais com desmatamento desde 2019 (134 mil) são apenas 2,1% do total de imóveis rurais brasileiros.

— Duas regiões do país chamam muita atenção, a chamada Matopiba (entre Maranhão, Piaui, Tocantins e Bahia), que concentra 77% do desmatamento do Cerrado e, no caso da Amazônia, a Amacro (divisa do Amazonas com Rondônia e Acre), onde houve aumento de 28% e que já representa 20% do desmatamento da Amazônia —explica Azevedo.

— A perspectiva de abertura da BR-319 (que liga Manaus a Porto Velho) vem resultando no aumento de ocupações e grilagens no entorno, como corredor para o agronegócio.

Segundo o Imazon, nos últimos três anos, a Amazônia vinha numa tendência preocupante de alta no desmatamento. Larissa Amorim, que coordenou o relatório do Imazon, avisa que, se for mantida a tendência observada até o mês passado, 2022 também será um recorde de desmatamento de uma década e meia na Amazônia para o ano inteiro, e não apenas para o primeiro semestre.