Valor Econômico, v. 20, n. 4982, 16/04/2020. Brasil, p. A4

Para cada caso, país tem outros 9 ‘ocultos’, diz pesquisador

Entrevista: Marcelo Gomes, Pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Coordenador do Info Gripe


O número de casos de covid-19 registrados no Brasil ultrapassou a marca dos 28 mil, mas o total de infectados pelo coronavírus, causador da doença, já pode ter passado dos 200 mil no país.

É o que afirma Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), coordenador do Info Gripe, ferramenta que monitora os casos de síndromes respiratórias agudas graves, entre elas a covid-19.

“Levando em conta casos leves e casos assintomáticos, ou seja, se pensarmos em todos que se infectaram, independentemente de terem tido uma hospitalização, a taxa que se está trabalhando atualmente é de 85% a 90% de não notificados. Ou seja, para cada caso confirmado, há outros nove que não foram identificados”, disse ele ao Valor.

Por esse cálculo, enquanto o número de casos de covid-19 registrados e divulgados ontem pelo Ministério da Saúde estava em 28.320, o número total de infectados - não computados - estaria entre 238 mil e 252 mil.

“Essa proporção de 85% a 90% de não notificados é a estimativa que a maioria dos grupos de pesquisa, que está trabalhando com análise do coronavírus no Brasil, tem utilizado”, diz Gomes.

É uma estimativa que, segundo ele, tem embasamento em alguns trabalhos publicados, em particular em dados oriundos da China. A diferença entre o que é conhecido e o que é estimado é tão grande no país devido à escassez de testes.

“O Brasil está testando os hospitalizados. Quem não foi hospitalizado não está sendo testado. Isso vai começar a ser feito agora com a equipe médica. E vai ter um desenho por amostragem da população. Mas o dado que a gente tem hoje é fundamentalmente o das que foram hospitalizadas e das que morreram”, afirmou.

Marcelo Gomes diz que uma grande preocupação é com o avanço do vírus entre moradores de bairros pobres e favelas.

A falta de saneamento básico, de boas condições de higiene, os altos índices de tuberculose - que é um fator de risco importante para a covid-19 - e o adensamento populacional fazem com que essas áreas tenham um potencial explosivo de número de casos e de mortes por covid-19.

“É uma soma de vários fatores que aumentam significativamente a vulnerabilidade individual dessas pessoas. Então quando o vírus chegar a essas regiões, é de se esperar que a disseminação seja mais rápida [do que a registrada em regiões menos pobres] devido ao adensamento da população, é de se esperar um número maior de infectados, é de se esperar que o percentual de hospitalização seja mais alto e é de se esperar mais mortes”, avalia o pesquisador. “O temor é enorme. É um quadro extremamente preocupante.”

Gomes contesta o argumento de que o Brasil tende a ter uma situação melhor do que a da Itália ou a da Espanha, por exemplo, onde há, proporcionalmente, maior número de idosos.

A questão, segundo ele, é que a idade é apenas um fator de risco para a covid-19.

“Todos esses outros fatores que acometem a população mais pobre no Brasil provavelmente vão se sobrepor à questão da idade.”

De acordo com as estimativas do Ministério da Saúde, o pico de casos e de hospitalizações no país deverá ocorrer entre o fim de maio e o início de junho.

A Fiocruz não tem ainda uma projeção sobre quantas pessoas poderão ser contaminadas por coronavírus e quantas pessoas poderão vir a morrer nas próximas semanas ou meses.

“Essa projeção a gente vai começar a fazer agora”, disse Gomes referindo-se ao grupo de pesquisadores da Fiocruz. “A gente não fez isso antes por entender que no começo do processo havia ainda muita incerteza em termos dos parâmetros dessa doença, de taxa de contágio, tempo de infectividade, percentual de hospitalização”, disse.

Gomes partilha da posição dominante entre médicos e cientistas. “A melhor ferramenta para não sobrecarregar o sistema de saúde e, com isso, ter muitos óbitos é manter o isolamento.”