Valor Econômico, v. 20, n. 4982, 16/04/2020. Política, p. A6
Teich e Kalil são cotados para troca
André Guilherme Vieira
Andrea Jubé
Beth Koike
Fabio Murakawa
Com a saída de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde dada como certa, o presidente Jair Bolsonaro passou o dia em conversas políticas em busca de um substituto.
Os mais cotados são médicos que dariam viés técnico à escolha e têm perfil conservador. Foram mencionados com ênfase ontem o cardiologista Roberto Kalil Filho e o oncologista Nelson Sperle Teich. Parte da equipe de governo defende que Bolsonaro coloque na pasta um médico que possa fazer frente ao governador paulista João Doria (PSDB) e seu coordenador para a pandemia, o infectologia David Uip. O Estado de São Paulo é um defensor do isolamento horizontal, modelo combatido no Palácio do Planalto.
Também se buscam nomes que defendam a hidroxicloroquina, medicação para malária usada como coadjuvante no tratamento da covid-19, com eficácia terapêutica ainda a ser comprovada.
O cardiologista Roberto Kalil Filho é diretor-geral do Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês, mesmo empregador de Uip, e passou a se relacionar com o presidente Jair Bolsonaro depois que revelou, na semana passada, ter tomado hidroxicloroquina ao ser hospitalizado com o diagnóstico de covid-19.
Na quarta-feira, dia 8, Bolsonaro parabenizou o médico pela decisão de usar a cloroquina, durante pronunciamento realizado em cadeia nacional de rádio e TV. Ambos se falaram por telefone e passaram a trocar mensagens e telefonemas. Kalil também é médico do apresentador José Luiz Datena, jornalista próximo ao presidente. Bolsonaro indagou a Datena sobre Kalil, e ouviu elogios do apresentador ao cardiologista. Procurado, Kalil não respondeu à reportagem.
De acordo com um empresário amigo de Bolsonaro e Kalil, os dois “conversam” por WhatsApp com frequência desde então. Bolsonaro teria pedido a aliados próximos que “levantassem a ficha” do cardiologista, que já foi o médico da Presidência da República durante os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. O pai de Kalil, Roberto, era amigo do ex-presidente militar João Baptista Figueiredo.
O relacionamento começou antes que o general fosse alçado à Presidência. Os dois se conheceram na hípica de São Paulo, clube tradicional fundado pelo avô do cardiologista. Há décadas a família de Kalil também mantém amizade com o ex-prefeito de São Paulo e ex- deputado federal Paulo Maluf. O Sírio-Libanês é uma das entidades científicas brasileiras que atuam no desenvolvimento de uma vacina para o Sars-Cov-2.
O oncologista carioca Nelson Sperle Teich deve ser recebido hoje por Bolsonaro, que começa a se encontrar com os mais cotados. Ele tem o respaldo do ministro da Economia, Paulo Guedes, do secretário especial de Comunicação Social, Fabio Wajngarten e de empresários bolsonaristas.
Segundo uma fonte que acompanha as sondagens, Teich foi apresentado a Bolsonaro por Guedes durante a campanha eleitoral. Ele chegou a ser cogitado para o cargo, mas perdeu a disputa para Mandetta, apadrinhado político do então governador eleito Ronaldo Caiado (DEM) - à época um forte aliado de Bolsonaro - e do ministro
Onyx Lorenzoni (DEM), que chefiava a Casa Civil e hoje ocupa o Ministério da Cidadania.
Além do apoio de Guedes, Teich tem a simpatia de Wajngarten, do empresário Meyer Nigri, dono da empresa de construção civil Tecnisa e integrante do núcleo próximo do presidente, e de empresários da área de saúde privada.
Bolsonaro quase formalizou o convite ao médico e empresário presidente do Conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, Claudio Lottenberg, ex-secretário municipal da Saúde de São Paulo por três meses, em 2005, na gestão José Serra. No entanto, o médico dirige o Lide Saúde, do grupo empresarial fundado pelo governador João Doria (PSDB), que se tornou desafeto do presidente e é hoje seu principal adversário político.
Recém-filiado ao DEM, Lottenberg postula a vice na chapa de Bruno Covas (PSDB) à reeleição para a Prefeitura de São Paulo, mas aceitará o convite se for chamado por Bolsonaro, conforme declarou em em uma ‘live’ organizada ontem pelo Fórum da Liberdade. Durante a live, o presidente do conselho do Einstein defendeu ainda isolamento social com ajuda de testagem em massa e uso de tecnologias que detectem os grupos de risco. Para ele, não faz sentido promover isolamento social em todas as localidades e categorias de trabalho.
Ainda integra a relação de cotados para o Ministério a médica Nise Yamaguchi, uma das principais defensoras da cloroquina no governo. Ela é irmã de Naomi Yamaguchi, que fez parte do gabinete de transição do Ministério da Educação coordenado por Ricardo Vélez. Nise foi candidata a deputada federal pelo PSL, mas não se elegeu.
Bolsonaro também autorizou a sondagem da cardiologista e pesquisadora goiana Ludhmila Hajjar, diretora de ciência e inovação da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Mas ela teria hesitado por considerar a empreitada um desafio muito grande, conforme relato de uma fonte.
O ex-ministro e deputado federal Osmar Terra (MDB) segue com o apoio da ala mais ideológica do governo. É o principal crítico no Brasil ao isolamento horizontal e por várias ocasiões minimizou a gravidade da pandemia. Terra foi flagrado recentemente em uma conversa com Onyx em que tratavam abertamente da conveniência da demissão de Mandetta. Desde então, sua cotação baixou na bolsa de apostas. Há temores de que sua indicação provoque forte repercussão negativa.
Já o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, foi praticamente descartado do páreo depois de afirmar ontem, em entrevista coletiva, que deixará a função juntamente com Mandetta na hipótese de ser confirmada a saída do atual ministro.
Ex-secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, Gabbardo é um quadro técnico, de perfil discreto e sem ambições eleitorais. Tem posições mais flexíveis que as de Mandetta em relação a medidas restritivas aplicadas por Estados e municípios. Ele tem a simpatia dos militares e é visto como uma troca menos traumática.
O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o médico e contra-almirante da Marinha Antônio Barra Torres, também tem respaldo da ala militar do Planalto e continua sendo uma aposta. Seu maior trunfo é a proximidade com o presidente da República.