O Globo, n. 32496, 27/07/2022. Política, p. 8
Tasso resiste, e PSDB adia indicação de vice
Camila Zarur
Eduardo Gonçalves
Fernanda Trisotto
Com a ampliação da divisão nos estados entre PSDB e MDB e a crescente resistência do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) de aceitar o posto de vice na chapa ao Planalto de Simone Tebet, a sigla tucana decidiu ontem adiar a indicação de seu nome para a vaga, o que deveria acontecer hoje, quando as duas legendas fazem suas convenções nacionais.
Tasso passou a demonstrar resistência em ser o companheiro de Tebet, sobretudo depois que se acentuaram entraves entre PSDB e MDB nos estados. O esgarçamento da relação pode fazer até mesmo que os tucanos abram mão da posição. O PSDB forma uma federação com o Cidadania, que neste caso poderia ficar a vaga.
Diante do iminente recuo de Tasso, ganhou força para ocupar o posto de vice a senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), para formar uma chapa exclusivamente feminina, a única na disputa pelo Palácio do Planalto deste ano. A própria Tebet não esconde, porém, sua preferência pelo senador tucano.
— Sem dúvida uma chapa feminina (seria positiva), independente das mulheres do PSDB ou do Cidadania, mas hoje a preferência é do senador Tasso — afirmou Tebet durante entrevista ao Canal Meio ontem à noite.
Com o adiamento, a escolha do vice ficará a cargo dos presidentes do PSDB, Bruno Araújo, e do Cidadania, Roberto Freire. O nome do indicado só deverá sair no final da temporada de e convenções, que termina no dia 5 de agosto.
A decisão de adiar a indicação foi tomada pelos tucanos após uma reunião da Executiva do partido ontem à tarde, véspera da convenção nacional, marcada para hoje em Brasília, ocasião em que a sigla vai debater a aliança presidencial.
Apesar de inicialmente ter se movimentando para fortalecer a candidatura de Tebet ao Palácio do Planalto, Tasso mudou de postura recentemente. Ele reduziu a mobilização diante da dificuldade de MDB e PSDB chegarem a acordos em diversos estados. Nas 15 unidades da federação onde ao menos uma das siglas tem candidato ao governo local, apenas em Alagoas e no Pará tucanos e emedebistas já definiram que estarão juntos na disputa estadual.
Nas últimas semanas, o senador cearense tem sinalizado a pessoas de confiança que anda menos entusiasmado com o plano de compor o palanque de Tebet. Nas mesmas conversas, indica que está tentado a não disputar a eleição deste ano para se dedicar mais à família. Tasso, porém, não bateu martelo. Ontem, após a reunião da Executiva do PSDB, ele emitiu um comunicado oficial em que, apesar de não garantir presença na chapa de Tebet, reafirmou seu apoio à senadora.
“A definição da vice depende de uma série de conversas e entendimentos internos de sentido político e eleitoral, em que o propósito final será encontrar aquilo que seja o melhor para a candidatura. Qualquer que seja a decisão, estarei do lado dela”, afirmou.
Um dos principais descompassos entre MDB e PSDB está no Rio Grande do Sul. Os tucanos exigem que os aliados apoiem a reeleição do ex-governador Eduardo Leite, que deixou o cargo numa tentativa frustrada de se candidatar à Presidência. Os emedebistas garantiram que estariam com Leite, mas, até agora, o acordo não saiu da promessa.
Peso dos dissidentes
Além disso, há um receio entre os tucanos com a falta de unidade no MDB. Importantes correligionários dela, sobretudo de estados do Nordeste, já declararam apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Por outro lado, emedebistas do Sul do país flertam ostensivamente com a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL).
Integrantes do PSDB ouvidos pelo GLOBO admitem que uma parcela considerável do partido está insegura com a aliança, já que a senadora não conta com o apoio maciço da própria legenda. Os tucanos abriram mão de ter um candidato próprio para engrossar o palanque da senadora, que trafega na casa de 1% das intenções de voto nas pesquisas.