O Globo, n. 32493, 24/07/2022. Política, p. 4
Túnel do tempo
Jussara Soares
Daniel Gullino
Quatro anos separam a convenção do PSL que confirmou a candidatura do então deputado federal Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 do ato marcado para hoje no Maracanã zinho, no Rio, para oficializara entrada dele, agora no PL, na briga pela reeleição. A distância entre os dois eventos não é apenas temporal. Quase um mandato depois, Bolsonaro se aliou aos políticos do Centrão que ele próprio atacava, teve de lidar com suspeitas de corrupção em seu governo — episódios que prometia impedir— e agora está no meio de uma disputa entre aliados em torno da melhor estratégia para sair da incômoda segunda posição nas pesquisas, lideradas pelo ex-presidente Lula (PT).
Em 2018, Bolsonaro e seus aliados pregaram tolerância zero a desvios e expuseram um rosário de ataques ao Centrão, bloco partidário capitaneado por PL, PP e Republicanos, conhecido pelo pragmatismo. Ao longo de sua gestão, contudo, o presidente fez concessões. Para formar uma base no Congresso, em nome da governabilidade, filiou-se ao PL e distribuiu cargos a indicados das outras duas siglas que integram o grupo, inclusive o ministério mais estratégico da máquina federal, a Casa Civil, hoje com Ciro Nogueira, cacique do PP. Ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Nogueira integra o núcleo duro da campanha. Bolsonaro também apoiou a eleiçãoàp residência da Câmara de Arthur Lira( P P-AL ), que tem defendido os interesses do governo na Casa. Flávio justifica a guinada:
— O presidente precisava de uma base para aprovar as várias coisas que aprovou em três ano semeio. Todos os partidos foram fundamentais, não tem preconceito com relação a isso. Quem tem quedara resposta se o deputado ou senador( do Centrão) fez um bom trabalho ou nãoéoe leitor. Não cabe ao presidente fazer esse filtro — disse ao GLOBO. A convenção realizada quatro anos atrás ficou marcada por uma canção entoada pelo general Augusto Heleno, atual ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional:
— Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão — cantarolou no microfone, fazendo referência à música “Reunião de Bacana”, de Bezerra da Silva, cujo refrão diz: “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão.”
Discurso autoral
Àquela altura, Bolsonaro tinha em torno de si personagens com quem acabou rompendo, como os deputados Julian Lemos (União-PB) e Luciano Bivar (União-PE), um dos seus adversários na atual batalha pela Presidência. Logo no início do governo, Gustavo Bebianno deixou a Secretaria-Geral da Presidência e se tornou um desafeto após desentendimentos com o vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos). Depois, juntaram-se à prateleira de ex-aliados outros nomes, como Sergio Moro (União ), que deixou o Ministério da Justiça acusando o então chefe de ser conivente com malfeitos, e o general Santos Cruz (Podemos), demitido da Secretaria de Governo num entrevero público com Bolsonaro. Cotada para vice em 2018, Janaina Paschoal se elegeu deputada estadual e se tornou “independente”.
A campanha vitoriosa era escassa de recursos, com pouco tempo de TV —oito segundos no programa eleitoral (neste ano a previsão é de cer cade 3 minutos) — e recheada de retóricas.
Bolsonaro gastou R$ 2,8 milhões — a previsão para este ano chega aR $88,3 milhões. Um dos principais focos estava no combate à corrupção. Dois anos após as acusações feitas por Moro, em março passado, o próprio presidente exonerou o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em meio a denúncias de que pastores intermediavam liberação de recursos da pasta para prefeituras mediante propina.
Ribeiro chegou a ser preso. Olhando para afrente, a campanha traçou como um dos principais desafios a reconquista de brasileiros que, a exemplo desses aliados, se desiludiram com Bolsonaro. O caminho par achegara eles, entretanto, abriu fissuras. A ala política tem se incomodado com as agendas do presidente, a maioria delas definida por assessores do Palácio do Planalto, alheios ao grupo que trabalha pela reeleição. Integrantes da campanha acreditam que o presidente tem desperdiçado tempo e energia com um público já convertido, ao apostar principalmente em evangélicos e nas motociatas. Na opinião dos estrategistas responsáveis pela pauta eleitoral, Bolsonaro deveria mirar em agendas mais diversificadas, focados nos brasileiros de baixa renda e do mercado financeiro, por exemplo, para “furar a bolha ”.
De acordo com Flávio Bolsonaro, o próprio presidente preparou o discurso que vai apresentar hoje, a partir de sugestões feitas pelo núcleo político. Bolsonaro deverá defender sua gestão durante a pandemia da Covid-19, dizendo que cuidou das pessoas e tomou todas a decisões tentando acertar. Também estão previstas exaltações a medidas econômicas, como o aumento do Auxílio Brasil para R$ 600, e a diminuição do preço dos combustíveis. A equipe da campanha aposta nisso para Bolsonaro diminuir a desvantagem em relação ao ex-presidente Lula.
Jingle e as mulheres
Bolsonaro deverá concentrar atenção especial no público feminino, entre o qual ele enfrenta forte rejeição. O presidente planeja citar que as mulheres são as principais beneficiárias de programas sociais, como o próprio Auxílio Brasil, assim como da distribuição de títulos de propriedade rural. Para jovens, a sugestão é que Bolsonaro destaque o perdão de até 99% das dívidas do Fundo de Financiamento Estudantil ( Fies) e a geração de vagas para o primeiro emprego.
O titular do Planalto, porém, não deve abandonar narrativas como pautas de costumes e declarações contra a esquerda. Com grande apoio entre evangélicos, a expectativa é que repita que atua como defensor da família. Além disso, a lembrança de que foi esfaqueado em Juiz de Fora (MG), em 2018, será reforçada. No evento, serão exibidos vídeos de Bolsonaro e um clipe como jingle “ Capitão do Povo ”, gravado pela dupla sertaneja Mateus e Cristiano. O refrão diz que o“ capitão do povo” vai “vencer de novo ”. Exibindo a todo momento a bandeira do Brasil e as cores verde e amarela, o vídeo ressalta a história de vida de Bolsonaro, como a passagem pelo Exército. (Colaborou Alice Cravo)