Título: Sinalizando à esquerda
Autor: Milton Temer
Fonte: Jornal do Brasil, 20/12/2005, Outras Opiniões, p. A13

Cada um tem o direito de tirar as conclusões que quiser. Mas os índices de pesquisa de intenção de votos garantindo a Orestes Quércia a vitória na disputa do governo de São Paulo, quaisquer que fossem os outros nomes apresentados ao cidadão pesquisado, são um dado fundamental a se adicionar ao anunciado no resultado do plebiscito sobre o comércio de armas: há uma absoluta imprevisibilidade sobre o comportamento do eleitor em 2006.

Ou alguém pretende apontar Quércia como a grande novidade no cenário político da Paulicéia? Ou alguém pretende apresentá-lo como o messias restaurador da ética e da transparência na vida pública, tão ansiado por um povo que já não agüenta mais a convivência com os valerioindultos, na precisa qualificação do deputado Chico Alencar, que assolam o país?

Se o nome de Quércia se impõe inclusive ao de FHC (me despertando curiosidade sobre o que ocorreria caso fosse Lula o inscrito na cartela) não é porque o eleitor o foi buscar no pijama da aposentadoria a que se havia entregue depois de sucessivos fracassos eleitorais. A pesquisa, aliás, comprova isso quando mostra que seu nome não aparece na citação espontânea. É diante das alternativas apresentadas pelo pesquisador que seu nome é escolhido. E por quê? Porque, evidentemente, simbolizou o ''enéas'' disponível para a negação da falsa dicotomia PT x PSDB que começa a não ser reconhecida, a despeito de todo o esforço da mídia a serviço do grande capital tentar impô-la como a única viável.

Ou seja; por trás dos dados não pode estar outra informação além do prenúncio da certeza de imprevisibilidade, ano que vem, sobre o que fará o cidadão cansado com a inversão de valores marcante em 2005.

Algumas redes de tevê, quase monopolísticas na informação, podem não acreditar, mas o povo não é burro. O que lhe falta são instrumentos de controle permanente sobre os representantes que elege, tanto nos Executivos como nos Parlamentos, para além do centésimo de segundo em que se pronuncia na urna eletrônica, de quatro em quatro anos. Apostou em Lula e no PT, mas não quer repetir a experiência diante da esteira de traições com que se viu contemplado pelo esquema cujo subcomandante incontestável era o hoje arroz de festa da emergência social carioca, o ex-ministro e deputado cassado José Dirceu de Oliveira e Silva.

Qual a alternativa? A pesquisa paulista informa também não ser o PSDB. Este já traiu lá atrás, quando se juntou ao PFL e produziu um dos mais trágicos governos que a República conheceu. O período em que o autoritarismo das baionetas foi substituído por um, não menos cruel, mas muito mais sofisticado: o autoritarismo do pensamento único, do ''there is not alternative'' tatcheriano, que Leandro Konder relembrou em sua última sempre brilhante crônica do caderno Idéias do JB. O período em que foram dinamitados boa parte dos direitos sociais, no complemento da entrega do patrimônio público aos grandes predadores internacionais e seus parceiros locais, com financiamento do próprio BNDES.

A verdadeira alternativa - sinaliza o resultado das pesquisas que, reitero, só mostra sinais - é alguém que restabeleça a confiança combalida do cidadão médio nas chamadas instituições republicanas. Não só as que têm cargos ocupados por sua indicação direta pelo voto, mas também as que são ocupadas por indicação dos representantes que elege - a presidência do Banco Central e as altas instâncias do Judiciário, apenas para lembrar as mais expressivas na decisão sobre o futuro social e econômico da nação.

Porque, como bem tem demonstrado VillasBoas Correa em seus artigos nesta página, é justo considerar que o comportamento partidarizado e, por vezes até desrespeitoso, de ministros do Supremo Tribunal Federal tem muita responsabilidade no quadro de descrença cívica que se alastra. Ver o presidente do STF dar instrumentos a Severino Cavalcanti para propiciar aumento de vantagens pornográficas a parlamentares, ou vê-lo sentar sobre processo que fere interesses dos grandes banqueiros, não é motivo de aumento de respeito com os administradores da res publica.

Alternativa, portanto, é consolidar uma candidatura restauradora da esperança como anseio realizável. Que só pode ser pelo que ainda se afirma como representação de esquerda. Ou será um tsunami de votos nulos.