Título: Siderurgia em recessão
Autor: Mariana Carneiro
Fonte: Jornal do Brasil, 20/12/2005, Economia & Negócios, p. A20
O setor siderúrgico quer esquecer o ano de 2005. Segundo estimativa divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), as vendas do segmento no mercado interno caíram 9% no ano, comportamento comparável ''a anos de recessão'' econômica, nas palavras dos próprios empresários. - A produção de aço está visceralmente ligada à política econômica e ao crescimento do país. Assim, o câmbio forte, a política monetária restritiva e as obras públicas paralisadas refletiram negativamente no setor, tanto nos aços longos (mais usados na construção civil) quanto nos planos (automóveis e eletrodomésticos) - explicou o presidente do instituto, Luiz André Rico Vicente, vice-presidente da Gerdau Açominas.
Se as vendas no mercado doméstico caíram de um patamar de 17,7 milhões de toneladas em 2004 para pouco mais de 16 milhões de toneladas este ano, a produção de aço bruto também recuou. Segundo prevê o IBS, a retração ficará em cerca de 4% este ano. O consumo aparente - compras feitas diretamente às siderúrgicas, exceto importações - caiu 7,9%, voltando ao patamar de 2002 (16,8 milhões de toneladas). Além da economia sob pressão, contribuiu para o mal desempenho do setor a alta formação de estoques. De acordo com dados do instituto, neste ano, o segmento atingiu o mais alto patamar de estocagem de aços planos da história, algo perto de 730 milhões de toneladas.
- Os estoques começam agora a ser desovados, mas ainda muito lentamente - disse Rico Vicente. - Esperávamos uma reação no quarto trimestre, o que acabou não acontecendo.
O setor admite que o preço do aço em alta teve responsabilidade nesse resultado. Os preços subiram a partir do segundo semestre de 2004 e, de acordo com dados apresentados pelo IBS, voltaram a cair na virada do primeiro para o segundo semestre. Apesar das tarifas de importação zeradas, o que valeu para a queda do preço do produto no país, na opinião de Rico Vicente, foi mesmo o movimento de mercado.
- Os preços em alta puxaram um movimento especulativo forte e levaram à formação de estoques - reconheceu Rico Vicente. Grandes compradores, como a Volkswagen, chegaram a fazer leilões para comprar o insumo mais barato.
Mesmo assim, o setor automotivo foi o responsável por manter o vigor das vendas de aços planos. Só ele manteve alta nas compras ante os 11 primeiros meses do ano passado (3,4%). Todos os demais caíram, com destaque para construção civil (-9,7%) e utilidades domésticas e comerciais (-21,8%).
Além desse setor, as exportações deram uma mãozinha para o setor, ao crescerem 5% neste ano e atingirem recorde de receita (US$ 6,7 bilhões), alta de 26,4%, segundo o IBS. De acordo com Rico Vicente, isso se deve à alta do preço e também à venda de produtos com maior valor agregado.
Segundo o executivo, o setor vai virar o ano com nível de estoques acima do desejável, o que leva as siderúrgicas a vislumbrarem um cenário mais pessimista para o ano que vem. O IBS trabalha com a projeção de crescimento da economia em 2006 de 3,5%. Com isso, a produção de aço deverá crescer 4,1% e as vendas internas, 10,2%, voltando aos níveis de 2004.