O Estado de S. Paulo, n. 47873, 12/11/2024. Metrópole, p. A21
COP-29: ‘Nações ricas pagarem não é caridade’
Priscila Mengue
Karla Spotorno
A Cúpula das Nações Unidas sobre Clima (COP-29) foi oficialmente aberta ontem, em Baku, no Azerbaijão. Em uma edição que está sendo chamada como “COP das Finanças”, a maior autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) nessa área defendeu que “não é caridade” a destinação de recursos de países ricos para que as nações em desenvolvimento façam a adaptação climática e a transição para fontes de energia de menor impacto ambiental.
“Se países não conseguirem construir resiliência nas cadeias de suprimento, toda a economia global será colocada de joelhos. Nenhum país está imune”, declarou Simon Stiell, secretário executivo do Clima da ONU. “É hora de mostrar que a cooperação global não está em baixa.”
A conferência começa sob pessimismo, após o fracasso em negociações anteriores, como a Cúpula da Biodiversidade, na Colômbia, que terminou sem consenso sobre criar um fundo global para proteção da natureza. Além disso, a volta de Donald Trump para a Casa Branca a partir de janeiro sinaliza mais dificuldades para os próximos anos – no primeiro mandato (2017-2021), ele tirou os Estados Unidos do Acordo de Paris, pacto assinado por quase 200 países para frear o aquecimento global.
O evento ocorre ainda sem grandes líderes, como os presidentes americano (Joe Biden), brasileiro (Luiz Inácio Lula da Silva), francês (Emmanuel Macron) e alemão (Olaf Scholz).
O secretário do Clima defendeu que não basta a concordância dos países pelo financiamento, mas que é necessário
“Para aqueles que se dedicam à ação climática, o resultado da semana passada, nos Estados Unidos, é, obviamente, amargo e decepcionante (...) Está claro que o próximo governo tentará dar meia-volta e reverter grande parte desse progresso (na agenda ambiental)” John Podesta
Líder da delegação dos Estados Unidos na COP
trabalhar duro para mudar o sistema de financiamento global, dando espaço fiscal para que haja a mudança. Nesse aspecto, citou que cerca de dois terços das nações não conseguem bancar a redução de emissões rapidamente e, por isso, todo o mundo “paga um preço brutal”.
Há anos, os países discutem como os recursos devem chegar aos países em desenvolvimento, de modo que não causem endividamento. Uma parte é subsidiada a juros baixos, mas não tudo. “Vamos dispensar qualquer ideia de que financiamento climático é caridade. Uma ambiciosa nova meta climática é totalmente de interesse de todas as nações, incluindo as maiores e mais ricas.”
Na reuniões pré-COP, não houve avanço nesse âmbito. Vários aspectos do “Novo Objetivo Coletivo Quantificado sobre Financiamento Climático” (NCQG na sigla em inglês) precisam ser definidos. Entre eles, a secretária do Clima do Ministério do Meio Ambiente, Ana Toni, destacou no mês passado o valor, visto que estudos apontam para a necessidade de pelo menos cerca de US$ 1 trilhão, dez vezes mais do acordado até este ano.
Em seu discurso, o presidente da COP-29, Mukhtar Babayev, mencionou desastres naturais ocorridos em diversas partes do mundo neste ano, como a recente enchente na Espanha. “As pessoas estão sofrendo”, disse. “E precisam mais do que compaixão e orações, mas de liderança e ação.”
EUA. O líder da delegação dos Estados Unidos, John Podesta, iniciou a sua primeira fala pública com o que disse ser o “tópico que está na mente de todos”: a vitória de Donald Trump no pleito americano. “Em janeiro, empossaremos um presidente cuja relação com a mudança climática é capturada pelas palavras ‘farsa’ e ‘combustíveis fósseis’.”
Para ele, “está claro que o próximo governo tentará dar meia-volta e reverter grande parte do progresso (na agenda ambiental)”. Por outro lado, Podesta reforçou o posicionamento de parte dos países ricos de que o financiamento climático deve ser responsabilidade de mais atores globais.