Correio Braziliense, n. 22561, 25/12/2024. Política, p. 3
Polarização política desafia papel do Brics
A crescente polarização política na América do Sul não apenas impacta as relações bilaterais, mas impõe desafios à integração regional e à atuação do Brasil em blocos como o Brics, dos países emergentes. Segundo o professor de direito internacional Lucas Carlos Lima, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), manter a diplomacia e a cooperação é essencial para superar as divergências ideológicas e garantir o avanço de valores democráticos e de direitos humanos na região. “A polarização faz parte da nova realidade política e temos que estar preparados para ela”, disse.
Lima destacou que a expansão do Brics, atualmente no seu segundo processo de ampliação, deve ser conduzida com cautela para não comprometer os objetivos do bloco. “É necessário verificar quais são os impactos desses novos membros à luz das circunstâncias internacionais antes de aumentar a expansão do bloco. Caso contrário, o Brics perde o seu sentido”, alertou.
No âmbito regional, o Brasil desempenha um papel crucial na defesa da democracia e dos direitos humanos, mesmo em contextos de regimes autoritários. No entanto, ele enfatizou o equilíbrio que o Brasil mantém ao seguir o princípio da não intervenção, uma tradição jurídica consolidada na América Latina.
Sem dependência
De acordo com José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a Venezuela enfrenta desafios estruturais que limitam o seu papel como parceiro comercial. “A Venezuela tem problemas econômicos, financeiros e diplomáticos que dificultam qualquer avanço comercial. O mercado já foi grande no passado, mas, hoje, não tem peso porque a Venezuela não tem dinheiro. Só se vende à Venezuela com pagamento antecipado, e isso limita muito o comércio”, explicou.
Castro acrescenta que a crise também é agravada pela falta de infraestrutura e de profissionais qualificados. “A Venezuela já foi um dos maiores produtores de petróleo do mundo, mas perdeu essa posição há muito tempo. Além disso, não tem recursos nem capacidade técnica para reerguer a sua indústria, o que impede que volte a ser competitiva no mercado internacional.” Sobre a Argentina, ele explicou que já foi um dos principais mercados para produtos manufaturados brasileiros, mas a situação mudou drasticamente devido às crises internas. “A Argentina rivalizava com os Estados Unidos como o principal parceiro comercial do Brasil. No entanto, os problemas econômicos e sociais a transformaram num país com mais desempregados e pessoas passando fome. Hoje, ela não tem o mesmo protagonismo de outrora”, explicou. Apesar das dificuldades, Castro reforçou a importância de manter uma boa relação comercial e diplomática com o país. “Eu não posso brigar com a Argentina, porque se eu abrir mão desse espaço, os chineses ocuparão. Isso seria prejudicial para o Brasil, especialmente no setor de manufaturados, que gera empregos e contribui para a economia nacional. Estamos num continente isolado. Se cada um resolver fazer tudo sozinho, ficará muito caro e inviável”, afirmou.