O Globo, n. 32.298, 10/01/2022. Política, p. 5
Pandemia domina discursos no Congresso em 2021
Dimitrius Dantas
Vacina, pandemia, auxílio, saúde: o combate ao novo coronavírus dominou os
debates no Congresso no ano passado. É o que aponta levantamento feito pelo
GLOBO em mais de 24 mil discursos de deputados e senadores em 2021. Os dados
revelam que diversos termos ligados à saúde apareceram com grande frequência
tanto na Câmara quanto no Senado e estiveram entre as cem palavras mais
pronunciadas pelos parlamentares no período.
Repetida
mais de dez mil vezes, a palavra “saúde”, por exemplo, foi a 22ª mais dita na
Câmara e a 23ª no Senado. Isso significa que foi proferida, em média, 28 vezes
por dia, levando em consideração os dois plenários. Além dela, outras como
“pandemia”, “auxílio”, “vacina”, “vida” e “emergencial” estiveram
frequentemente na boca das excelências.
Apesar
do ano temático, palavras típicas de discursos de políticos continuaram
presentes no Congresso em 2021. “Brasil” foi a mais repetida, contando as duas
Casas, e “governo” também apareceu em profusão nos discursos de deputados e
senadores.
Os
números, contudo, revelam diferenças entre o Senado, onde o governo enfrentou
mais dificuldades no ano passado, e a Câmara, que garantiu vitórias caras ao
Palácio do Planalto. O número de discursos na Câmara, formada por 513 eleitos,
foi proporcionalmente maior do que o do Senado, que tem 81 parlamentares. Foram
quase 20 mil pronunciamentos de deputados e quatro mil no Senado.
Em
2021, o presidente Jair Bolsonaro por vezes demonstrou irritação com as agruras
impostas pelo Senado, o que motivou inclusive a nomeação de um membro da Casa,
o senador Ciro Nogueira, para a Casa Civil. Apesar disso, a quantidade de
discursos aponta que a oposição foi mais aguerrida na Câmara do que no Senado.
Os cinco deputados que mais discursaram são de oposição: Talíria Petrone (PSOL-RJ), Erika
Kokay (PT-DF), Joênia Wapichana (Rede-RR), Henrique
Fontana (PT-RS) e Pompeo de Mattos (PDT-RS). No Senado, entre os congressistas
mais falantes há representantes da base, como Eduardo Girão, do Podemos do
Ceará (173 discursos), e oposicionistas, como o petista gaúcho Paulo Paim
(187). O líder em pronunciamentos, porém, foi Izalci Lucas (PSDB-DF), que adota
postura independente, com 260 discursos.
Em
2021, o nome do presidente da República esteve no centro do parlatório de uma
das Casas do Legislativo, mas não figurou entre as mais citadas na outra. A
palavra Bolsonaro foi a 17ª mais dita na Câmara. No Senado, entretanto, ficou
em 479º lugar no ranking das mais proferidas. O nome do ex-presidente Lula foi
a 176ª palavra mais citada na Câmara, enquanto no Senado não aparece nem entre
as duas mil mais repetidas.
Contudo,
em diversos momentos do ano, a preocupação com a vacinação foi o ponto crucial
das discussões. Em março, insatisfeito com o atraso para a aquisição de
imunizantes, até o presidente da Câmara e aliado do Planalto, Arthur Lira
(PP-AL), chegou a ameaçar Bolsonaro em plenário. Pressionado pelos colegas a
falar sobre a condução do governo nas áreas de saúde e no cenário
internacional, Lira lembrou que os “remédios políticos” do Congresso são
“conhecidos” e “todos amargos”, fazendo referência velada a um processo de
impeachment. Naquele momento, o país passava por dificuldades para importar
insumos e comprar vacinas.
Produção
Legislativa
Outras
palavras ligadas à pandemia apareceram com destaque no ranking das cem mais
ouvidas no Congresso, como “vacina”, repetida mais de seis mil vezes na Câmara
e no Senado. Saúde e pandemia, por exemplo, foram mais repetidas do que
educação. Entre os deputados, “auxílio” foi a 61ª mais repetida, à frente, por
exemplo, de economia.
Ao
longo de 2021, o plenário da Câmara aprovou 244 propostas, entre elas 123
projetos de lei e nove propostas de emenda à Constituição (PECs). Já no Senado,
os parlamentares deram aval a 247 propostas em plenário, sendo 163 projetos de
lei e 13 PECs.